A FILOSOFIA ANALÍTICA

16/05/2011 17:13

 Uma História da Filosofia Ocidental

De D. W. Hamlyn

Jorge Zahar Editor

Tradução de Ruy Jungmann

 A FILOSOFIA ANALÍTICA

O título deste capítulo induz a erro na medida em que tencionamos estudar uma série de filósofos, somente alguns dos que consideraram seus objetivos como principalmente analíticos. De qualquer modo, com um olhar retrospectivo, podemos ver que mesmo aqueles que explicitamente expuseram suas concepções de filosofia como centradas na análise não se interessaram apenas por isso, não mais do que Hume se interessou, por exemplo. Há alguns anos, dizia-se com freqüência que teria ocorrido uma revolução na filosofia nos primeiros anos deste século [XX]. Estas alegações perderam um tanto de credibilidade, embora a oposição de Wittgenstein nos últimos anos, explícita ou não, a Descartes, implicasse uma nova maneira de pensar, tão importante em nosso tempo como foi a do filósofo francês no seu. Neste e no capítulo seguinte, iniciaremos nosso estudo com filósofos do século XIX que, com toda probabilidade, não teriam se considerado como partes do movimento que discutiremos como tendo se originado deles. Será necessário também fazer uma ou duas digressões.

 

FREGE

Gottlob Frege (1848-1925) foi outro filósofo que teve relativamente pouco reconhecimento enquanto viveu, embora fosse respeitado e admirado por Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein. De certa maneira, pertence a um grupo interessado no desenvolvimento da lógica formal e da filosofia da matemática. Tentativas de instilar nova vida na lógica formal haviam começado antes com George Boole (1805-64), e matemáticos como George Cantor (1845-1908) interessaram-se pelos fundamentos da matemática. A primeira obra de Frege, Begriffschrift (Conceitografia) constituiu um esforço para expor uma nova notação de lógica que lhe daria uma base muito mais vasta que a lógica aristotélica e poderia ser usada para tratar de assuntos da filosofia da matemática. Como notação não obteve grande sucesso, mas assinalou um rompimento completo com a lógica tradicional. O Die Grundlagen der Arithmetik (Os fundamentos da aritmética) tentou demonstrar que a aritmética podia ser derivada das leis ou axiomas de um sistema de lógica formal. Isto implica a denominada tese logística da aritmética e, portanto, a matemática em geral poderia ser derivada da lógica.

Esse programa foi levado adiante no As leis fundamentais da aritmética (Die Grundgesetze der Arithmetik, 1893-1903). (Bertrand Russell tentou desenvolver programa semelhante no The Principles of Mathematics (1903), e levou-o a cabo de forma mais abrangente e formal no Principia Mathematica (1910-13), escrito em colaboração com A. N. Whitehead.) Em 1902, Russell escreveu a Frege, chamando-lhe a atenção para contradições em sua teoria, que ele mesmo tentou resolver com emprego de princípios ancilares, embora em detrimento da elegância da teoria. De qualquer modo, em 1931, Kurt Gödel provou que a matemática é incompleta e que há verdades aritméticas que são improváveis dentro de qualquer sistema lógico coerente. Isto pôs um fim ao programa logístico. Não obstante, permanecem as introvisões filosóficas que acompanharam as tentativas de desenvolver o programa.

Há, em primeiro lugar, a definição de número. A introvisão de Frege foi que números pertencem a conceitos (Russell disse que eles pertenciam a classes). Não quer isto dizer que os números sejam propriedades de conceitos, embora predicados numéricos se apliquem a coisas apenas na medida em que estas são ordenadas sob um conceito (algo que aparentemente Platão também percebeu). Frege sustenta que os números são objetos e o número que pertence ao conceito F é, segundo sua definição, a extensão (faixa de aplicação) do conceito igual ao conceito F. O argumento é o seguinte: pode-se dizer que dois conjuntos, ou classes, de objetos organizados pelos conceitos F e G são eqüinúmeros se seus membros podem ser colocados numa correspondência um-a-um – algo que, como demonstra Frege, não pressupõe o conceito de número. Frege pergunta o que significa dizer que o número que pertence ao conceito F é o mesmo que pertence ao conceito G, e responde ao longo dos mesmos princípios: isto equivale a dizer que a extensão do conceito igual ao conceito F é o mesmo que igual ao conceito G, isto é, as classes que formam sua extensão têm o mesmo número de membros. (Analogamente, Russell disse que cinco era a classe de todos os quintetos, e o número de classes de todas as classes semelhante a uma dada classe.) Frege define em seguida o zero como o número que pertence ao conceito “não idêntico consigo mesmo” (nada havendo, claro, que não seja idêntico a si mesmo). Tendo definido zero, e em seguida dada a noção de sucessão, que é definível em termos lógicos, é possível determinar todos os números subseqüentes.

A descrição que demos não é fácil de compreender. A versão de Russell talvez seja mais fácil de entender, mas é a Frege que cabe a precedência. E foi uma realização notável. A falha que Russell descobriu residia no fato de que era possível construir um paradoxo sobre a noção de classe de todas as classes, perguntando-se se a classe de todas as classes que não são membros de si mesmas é um membro de si mesma ou não. Se é, então não é, e se não é, então é. A possibilidade de produzir-se esse paradoxo pareceu lançar dúvida sobre a própria noção de uma classe de todas as classes. Frege tentou resolver o problema restringindo sua teoria. Russell propôs a teoria dos tipos, que se assemelha a uma teoria de categorias, ao proibir que se incluam coisas de diferentes tipos no mesmo nível. O paradoxo de Russell e sua “solução” despertaram o interesse por uma faixa inteira de paradoxos de tipo análogo e pela questão de como devem ser resolvidos.

Frege era contrário ao que chamava de “psicologismo” – ou a interpretação da lógica em termos psicológicos. A lógica diz respeito a proposições e, por conseguinte, é importante ser claro sobre o que são elas e qual o status dos termos que as compõem. No Fundamentos da aritmética, disse que se devia perguntar pelo sentido de uma palavra apenas no contexto, ou nexo, de uma proposição. As proposições é que constituem as unidades fundamentais do sentido. Mais tarde, ele diria que o sentido de uma proposição é um pensamento, de modo que são estes, sob a forma de juízos, que devem constituir o ponto de partida de qualquer teoria de sentido.

A fim de dar uma descrição das proposições, Frege recorreu à noção matemática de função. Na expressão de uma função como  2x² + x  a função é o que quer que seja escolhido pela parte da expressão que permanece quando retiramos as letras de argumento, os xs. Por comparação com o argumento de uma função, a função em si é incompleta e o lugar do argumento tem que ser preenchido para completá-la. Frege colocou essas idéias em um trabalho, “Função e Conceito”, dizendo que as funções são “insaturadas”. As funções têm valores diferentes para argumentos diferentes. As proposições podem ser interpretadas como funções que têm os valores Verdadeiro ou Falso e, assim, podem ser denominadas funções-verdade.

O argumento de uma função proposicional corresponde a um objeto. As expressões que têm que ser substituídas por variáveis, a fim de se conseguir o valor Verdadeiro ou Falso, devem ser tomadas como se referindo a objetos. Em contraste, a parte de função de uma proposição não se refere a um objeto, mas a um conceito, o que é logicamente muito diferente. Frege expõe essa distinção em seu trabalho (artigo) intitulado “Conceito e Objeto”. Observa também que, se usamos a expressão “o conceito cavalo”, teremos nos referido, por causa da natureza da expressão, a um objeto, com o resultado paradoxal de que o conceito cavalo é um objeto, não um conceito. Como quer que se pense que o paradoxo deva ser resolvido, é claro que ele surge pelo tratamento dos termos “objeto” e “conceito” como iguais a quaisquer outros, ao passo que eles têm o papel especial de selecionar as diferentes categorias de coisas pressupostas ao se dar sentido à proposição.

No seu artigo “Sobre Sentido e Significado”, Frege vai mais adiante na questão relativa a sentido. Começa da observação de que “A estrela matutina é a estrela vespertina” e “A estrela matutina é a estrela matutina” são, por igual, afirmações de identidade verdadeiras. Os termos de cada uma se referem à mesma coisa, mas a primeira proposição é informativa ao passo que a segunda não é. Frege sugere que podemos explicar isso apenas distinguindo entre o sentido e o significado de expressões. O sentido de uma proposição completa é um pensamento. Seu significado tem que ser Verdadeiro ou Falso, isto é, seu valor-verdade. O sentido de toda a proposição, o pensamento, é dado pelos sentidos das partes e por seu método de combinação. A fim de passar de sentido a significado, isto é, determinar a verdade ou falsidade de uma proposição, precisamos conhecer o significado das partes.

Frege entra em detalhes consideráveis sobre como isso funciona em vários casos, especialmente quando há o que ele chama de significado indireto, como na frase “Copérnico acreditava que as órbitas planetárias eram círculos”, porque, nesse caso, o significado que se segue ao “que” é determinado pelo significado de “Copérnico”, “órbitas planetárias” e “círculos”, ao passo que o significado de toda a proposição não é assim determinado. Copérnico podia ter acreditado ser isso verdade ou não. Em tais casos, diz Frege que o significado da subcláusula é um pensamento, isto é, seu sentido. Seja ou não satisfatória essa explicação, não há dúvida que são importantes os problemas que Frege está tentando resolver.

Vimos em alguns capítulos anteriores que alguns filósofos aceitaram sujeitos e predicados de proposição como representando objetos de um tipo ou outro, que são seus significados. Até agora não nos referimos a sujeitos e predicados ao discutir a obra de Frege, mas eles correspondem, na verdade, aos argumentos e funções. Dado isto, é claro que, para Frege, predicados acompanham conceitos, de modo que constitui um erro completo procurar os objetos aos quais se referem. A distinção entre conceito e objeto é fundamental. Além disso, Frege fala às vezes no sentido de uma expressão como o modo de apresentação de seu significado. Uma vez que as proposições têm como principal papel o de serem as unidades do discurso, e seu significado é Verdadeiro ou Falso, isto dá à verdade e à falsidade um lugar importante na teoria do significado apresentada – idéia esta muito explorada por filósofos recentes. Por outro lado, pode-se bem pensar que Frege confia em uma analogia duvidosa ao assemelhar proposições a funções e que a teoria de sentido proposta é ainda simples demais, a despeito de suas vantagens sobre a teoria de que o sentido das expressões é simplesmente seu significado. A discussão sobre esses pontos continua e a reputação de Frege é hoje mais alta do que jamais foi durante sua vida.

Mais um dado: por “conceito” Frege não entendia coisa alguma que acontece na mente do indivíduo, e o mesmo se aplica a “pensamento”. Esses termos teriam a ver com um reino de sentidos públicos. Em alguns de seus últimos trabalhos, ele falaria da existência de um reino de entidades entre os objetos físicos e as entidades mentais, e era a este reino que os conceitos e pensamentos pertenceriam. Mas esta é meramente uma maneira pitoresca de formular o argumento de que o sentido que as proposições e termos têm é algo publicamente acessível, sem que sejam físicos. Frege não perguntou como isso seria possível. Suas contribuições à filosofia, embora importantes, foram limitadas. Ele não duvidava da existência real de coisas fora da mente, mas não estava interessado em mais questões epistemológicas e metafísicas sobre isso. Seu comentador mais recente, Michael Dummett (nascido em 1925), considerou esse fato como uma indicação da importância fundamental da filosofia da linguagem, mas esse é um assunto discutível.

 

RUSSELL

Bertrand Russell (1872-1970) teve interesses mais amplos. O conde Russell, o que se tornou em 1931, era membro de uma ilustre família aristocrática. Matriculou-se no Trinity College, Cambridge, a fim de estudar matemática, passou à filosofia e subseqüentemente tornou-se Fellow do Trinity por algum tempo, voltando ao colégio em 1944. Entrementes, lecionou em Cambridge durante alguns períodos e visitou outras universidades, especialmente nos Estados Unidos. Pacifista durante a I Guerra Mundial, passou seis meses na prisão em 1918 por esse motivo. Foi homem de excepcional brilhantismo – alguns diriam que demais – e teve a atenção despertada por numerosas coisas, tanto em sua vida pessoal como em assuntos sociais e políticos. Seu trabalho em prol da Campanha pelo Desarmamento Nuclear, perto do fim da vida, é bem conhecido. Escreveu muitos livros sobre assuntos que não são rigorosamente filosóficos. É defensável a tese de que o melhor de sua filosofia apareceu à época em que ainda era jovem, e ele ficou realmente desapontado com a falta de entusiasmo pelo seu último trabalho importante, Human Knowledge (1948).

O primeiro livro de Russell, sua dissertação para a conquista de uma bolsa de estudo, tratou dos fundamentos da geometria e apareceu em 1897. Mostrava a obra as influências do idealismo, então dominante. Desviou-se, porém, para o realismo, em parte sob a influência de G. E. Moore, que estudaremos na seção seguinte, e até certo ponto porque veio a acreditar que o idealismo não podia explicar a verdade matemática. O The Principles of Mathematics (1903), precedido por um livro sobre Leibniz, introduziu o programa do logicismo que mencionamos ao discutir a obra de Frege, e defendeu uma forma extrema de realismo, segundo a qual tudo que podia ser um possível significado de um termo, mesmo entidades não-existentes ou logicamente impossíveis, tinham existência em algum sentido. Ligou ele essas idéias às de Alexius von Meinong (1853-1920), a quem voltaremos no capítulo seguinte. Mas veio a pensar que essa opinião carecia de sentido de realidade suficientemente robusto e seu trabalho subseqüente nessa área – o monumental Principia Mathematica (1910-13), escrito em colaboração com A. N. Whitehead, e o mais popular, mas longe de fácil, Introduction to Mathematical Philosophy (1919) – tomou direção oposta, chegando a ponto de negar a realidade das classes.

O passo crucial nessa direção foi dado por sua teoria das descrições, exposta em um trabalho intitulado “On Denoting”, publicado na revista Mind (e reimpresso várias vezes). Esse trabalho foi considerado por F. P. Ramsey (1903-30), ele mesmo filósofo ilustre nessa área, como um “paradigma da filosofia”. Afirma-se que essa teoria e a sua teoria dos tipos constituíram suas grandes contribuições à filosofia. Mencionamos a teoria dos tipos quando discutimos a obra de Frege e não voltaremos a esse assunto. Ela tem algo em comum, considerada como teoria filosófica e não apenas como solução para um problema técnico, com as teorias de categorias de outros filósofos.

O problema que levou à teoria das descrições, foi a aparente possibilidade de referência a entidades não-existentes. Isto era um problema especial para Russell, porque ele achava que o sentido de um termo é o que quer que seja a que ele se refere. Ele não aceitava, ou aparentemente nem entendia, a distinção de Frege entre sentido e significado e tendia, quando discutia o trabalho de Frege, a reinterpretar a distinção em seus próprios termos. Há na sua opinião um problema particular no tocante às chamadas frases denotadoras, tais como “O atual rei de França”. Não parece sem sentido dizer que “O atual rei de França é calvo”. Mas, se disséssemos que isso é falso, poderíamos ser interpretados como dizendo que o presente rei de França não é calvo, quando o ponto crucial é que não há nenhum presente rei de França.

A solução de Russell consistiu em dizer que a forma aparente de tal proposição não é o que ele chamou de sua forma lógica, e que, para compreender a proposição, precisamos analisá-la de modo a que sua forma lógica correta seja revelada (e com isto a idéia da análise lógica faz seu aparecimento). Essa forma lógica é tornada clara dizendo-se que “O presente rei de França é calvo” equivale a “Há um x, tal que x é agora rei de França, e para todos os y, se y é agora rei de França, y é idêntico a x, e x é calvo”. Esta análise torna explícita a asserção da existência de um presente rei de França, a excepcionalidade de tal indivíduo, e o fato de possuir a propriedade de calvície. Quando analisada, pode-se ver que a proposição é falsa, embora não da maneira vista em sua forma não analisada.

Na discussão de assunto semelhante no “Sobre Sentido e Significado”, disse Frege que as proposições do tipo que vimos considerando pressupõem a existência de alguma coisa correspondente à frase denotadora, e que, se a pressuposição não for justificada, não surge a questão de sua verdade ou falsidade. Mas continuou e sugeriu que, como artifício técnico, podia-se tomar essas frases como se referindo a uma classe nula. A primeira sugestão era possível, de acordo com a opinião de Frege, porque a proposição poderia ter um sentido sem ter um significado. Como adotava uma teoria diferente de sentido, Russell não podia aceitar essa solução. Quando uma opinião semelhante à de Frege foi sugerida em 1950 por P. F. Strawson, com base em uma teoria que vinculava significado ao possível uso das expressões, Russell reagiu com incompreensão, alegando que Strawson não compreendera o problema.

No intervalo, contudo, a teoria das descrições fora invocada em conexão com outras opiniões e passou a ter outras explicações. Em especial, insistiu Russell em que devia haver o que ele chamou de nomes logicamente corretos, expressões tais que seu significado é garantido, com objetos correspondentes às mesmas. Julgava-as necessárias porque o pensamento, da forma expressada na linguagem, não poderia, de outra forma, evidenciar qualquer firme apreensão da realidade. Nomes comuns não são assim e, em conseqüência, Russell dizia que eles são, na realidade, descrições disfarçadas. Os únicos nomes logicamente corretos são palavras como “aquele”, “aqui” e “agora” (que não são nomes absolutamente, da forma como ordinariamente interpretados). Estas são “egocêntricas” em seu uso, na medida em que pressupõem o ponto de vista da pessoa que os usa. O Russell posterior deu grande importância aos “particulares egocêntricos”, ao passo que o primeiro considerava os dados sensoriais como primários por causa de certas idéias epistemológicas.

Essas opiniões epistemológicas mostravam a influência dos empiristas britânicos. No Our Knowledge of the External World (1914), argumentava que os objetos físicos são, como disse, construções lógicas formadas de dados sensoriais reais e possíveis (chamando a estes últimos de “sensibilia”). Dizer isso equivale a afirmar que proposições a respeito de objetos físicos podem ser analisadas como proposições relativas a dados sensoriais reais e possíveis. O motivo por trás da análise, conforme revelado em alguns ensaios do seu Mysticism and Logic (1917), era a aceitação por ele de uma máxima que constituía sua versão da navalha de Occam – que, em todos os casos possíveis, as construções lógicas deviam ser substituídas por entidades inferidas. Em uma magistral introdução à filosofia, The Problems of Philosophy (1912), Russell pensara nos objetos físicos como entidades inferidas dos dados sensoriais. Seu empirismo nesse momento tornava isso condenável. É verdade que reteve essas inclinações empiristas durante toda a vida, mas alimentava dúvidas se o empirismo era sustentável em todas as áreas do conhecimento. As verdades matemáticas não podem ser derivadas da experiência – elas são analíticas -, mas isso é uma opinião comum à maioria das versões do empirismo do século XX, ao contrário da de Mill. Russell alimentava dúvidas maiores, porém, sobre os princípios subjacentes à indução e, no fim de sua vida filosófica, no Human Knowledge (1948), destacou-os como indicando os limites do empirismo.

Não obstante, o The Problems of Philosophy contém, de muitas maneiras, o essencial da epistemologia russelliana. E faz isto, em especial, no capítulo que trata da distinção entre conhecimento por familiaridade (contato direto) e o conhecimento por descrição, ambos dizendo respeito a conhecimento de objetos, em contraste com conhecimento proposicional, ou “conhecimento que”. Supõe Russell que temos conhecimento por familiaridade, certo e indubitável, dos dados sensoriais, dos dados da memória, de nós mesmos, e de universais (estes últimos, talvez, uma relíquia curiosa de seu platonismo anterior, e opinião que descartou mais tarde). William James em seu Principles havia estabelecido uma distinção entre familiaridade e conhecimento sobre, e alegara que o primeiro objeto de familiaridade da criança é todo o universo, mesmo que ela nada saiba a seu respeito. Essa opinião não é tão implausível como pode parecer à primeira vista, mas, de qualquer modo, não pressupõe em todos os casos coisa alguma sobre a indubitabilidade da familiaridade pressuposta por Russell. Ao fazer alegações neste sentido, Russell estava se colocando em clara oposição às idéias de idealistas como Bradley, que negavam que a experiência sensorial proporcionasse qualquer coisa de caráter imediato.

Russell assumiu a opinião contrária, e assim fez a maioria dos empiristas do século XX, embora, às vezes, com apreensões. Mais importante, talvez, Russell estabeleceu como um axioma fundamental que toda proposição que podemos entender deve ser composta inteiramente de constituintes, ou componentes, com os quais estamos familiarizados. Por “proposição” ele não queria dizer nada parecido com uma oração, mas o que ela poderia descrever como um possivelmente (embora não necessariamente) existente estado de coisas. Esse estado de coisas, por conseguinte, deveria ou constar diretamente de objetos de familiaridade ou ser analisável em termos dos que o constituem. Uma vez que os objetos de familiaridade incluem universais, é relativamente fácil compreender como tudo que se pode dizer pode ser também expressado inteiramente em termos de familiaridade com cada um, de alguma maneira. Pouco antes da I Guerra Mundial, Russell entrara em contato com o jovem Wittgenstein, que o viera procurar para tratar com ele de problemas sobre a filosofia da matemática. Wittgenstein já estava começando a pensar dentro da orientação de princípios que viram a luz do dia no único livro que publicou em vida, o Tractatus Logico-Philosophicus (1921). A influência foi mútua e, em 1918, Russell publicou alguns artigos na revista The Monist. Nesses artigos, que se baseavam em notas de aula, ele sugeriu uma ontologia que consistia de particulares, a ser identificada com os dados sensoriais em relações de variadas ordens de complexidade.

Esses particulares e relações concebem fatos de diferentes tipos, e as proposições – nesse momento tomadas como equivalentes a declarações – relacionam-se com fatos, significando-os de maneira verdadeira ou falsa. Particulares, diz ele, são termos de relações em fatos atômicos, e fatos complexos são construídos, por relações lógicas, de fatos atômicos. Estes são problemas de negação e problemas ainda maiores de crença-declarações, como entendia também Frege. Recorre ele às teorias da descrição e dos tipos para solucionar certos problemas e termina com uma seção intitulada “Excursus into Metaphysics: What There Is” (“Dissertação sobre metafísica: O que há”), na qual levanta a questão do status dos dados sensoriais, que são os elementos da realidade. Tal como Hume, quer conceber as mentes e corpos como construções de dados sensoriais e, assim, propõe que estes sejam concebidos como um neutro entre o mental e o físico – a doutrina do monismo neutro que ele atribui a James e Mach. A única dúvida a respeito da aceitabilidade da teoria surge, em sua opinião, do caso recalcitrante das crenças. Isto porque estas parecem ser mentais, e crenças-declarações, conforme vimos, não podem ser analisadas em outras proposições elementares. Russell especulou se não seria possível dar uma explicação behaviorista das crenças, o que permitiria então que fossem analisadas em termos de processos físicos e, desta maneira, em termos de dados sensoriais. Após a guerra, dirigiu-se para a América, onde sofreu influência de J. B. Watson, o criador do behaviorismo como teoria psicológica. O seu livro seguinte a sair, The Analysis of Mind (1921), obedientemente apresentou uma explicação behaviorista das crenças.

Mas basta do que é um esboço muito resumido do que constitui, de muitas maneiras, o trabalho fundamental de Russell. O que escreveu depois nunca mais teve a mesma coerência e status, mesmo que levemos em conta o The Analysis of Matter (1927) e o An Enquiry into Meaning and Truth (1940). The Philosophy of Logical Atomism (A filosofia do atomismo lógico) é leitura muito agradável, salpicada de indícios do senso de humor travesso e um tanto formal de Russell. Um detalhe adicional deve ser notado a respeito da obra, por causa de sua importância sobre as idéias do Wittgenstein posterior. A despeito do que disse sobre o monismo neutro na sua última seção, diz também na segunda seção que os dados sensoriais são de tal ordem que constituem objetos diferentes da familiaridade (contato direto) para diferentes pessoas. São nesse sentido privados e Russell tira como conseqüência que as pessoas devem forçosamente querer dizer coisas diferentes com o que dizem, uma vez que o significado de suas palavras, aquilo a que se referem, é, em última análise, esses dados sensoriais privados. É a ambigüidade da linguagem, diz ele (embora, claro, não seja uma ambigüidade comum) que torna possível o intercâmbio pela palavra. Wittgenstein consideraria isto, com toda razão, como um reductio ad absurdum da tese que a linguagem pode adquirir seu significado dessa maneira.

 

MOORE E OUTROS REALISTAS

Coube a G. E. Moore (1873-1958), mais do que a qualquer outro homem, promover a mudança do idealismo para o realismo na Grã-Bretanha. Foi imensamente influente, embora agora esteja se tornando um pouco difícil saber por quê. Há algo quase infantil nas atitudes filosóficas de Moore. Perto do fim da vida, disse ele que pensava que os únicos problemas filosóficos que o interessaram foram os sugeridos por coisas que outros filósofos haviam dito. Alegava também não ser muito afetado por considerações cépticas. Na verdade, Moore pareceu constantemente interessado em nos lembrar de coisas que simplesmente lhe pareciam verdadeiras. Renunciou à opinião de que os objetos das crenças são proposições que acontece serem verdadeiras ou falsas, isto principalmente, disse no Some Main Problems of Philosophy (palestras pronunciadas no período 1910-11, mas só publicadas em 1913), porque “não parece haver absolutamente proposições no sentido em que a teoria exige”. No “A Defense of Common-Sense” (publicado na Contemporary British Philosophy, 2. série, 1925), dispôs-se, como Reid, a defender o senso comum, apelando para o que lhe parecia sua óbvia verdade. No “Proof of and External World” (Proceedings of the British Academy, 1939) sugeriu, de uma maneira que alguns pensaram que era quase escandalosa, que podia provar a existência do mundo externo levantando as mãos e dizendo: “Aqui está uma mão” e “Aqui está a outra”. Era como se a verdade óbvia fosse suficiente, sem necessidade de responder a outros argumentos filosóficos em sentido contrário.

A preocupação central de Moore era a análise do que entendemos por essas coisas, embora ele negasse que a filosofia fosse apenas análise. Na sua opinião, os conceitos é que requerem análise e a análise deles consiste em produzir outros conceitos que, juntos, equivalem ao conceito a ser analisado, mas que não são explicitamente mencionados na enunciação do conceito inicial. Mas ele nunca se sentiu realmente feliz com essa explicação e disse que ela dava origem a um paradoxo de análise. Se, por exemplo, analisamos o conceito de irmão em termos do conceito de parente masculino, as duas expressões, “irmão” e “parente masculino”, devem significar a mesma coisa, embora as proposições “Um irmão é um parente masculino” e “Um parente masculino é um parente masculino” não sejam a mesma coisa. O problema lembra, embora não seja o mesmo, o de Frege com a estrela matutina e a vespertina. Não é o mesmo porque Frege não estava preocupado com a idéia de que uma análise estava sendo feita ao dizer-se que a estrela matutina é a estrela vespertina. Se há aqui um autêntico problema, ele está na noção da própria análise. A idéia de análise de conceitos implica que estes podem ser decompostos em outros, da maneira como compostos químicos podem ser decompostos em elementos. Essa concepção é duvidosa. A explicação de um conceito pode ser dada por uma grande variedade de maneiras, mas certamente não há uma única maneira que seja sua análise.

Ainda assim, durante toda a vida Moore apegou-se a essa visão de filosofia. Os ataques que desfechou no início de sua carreira no Principia Ethica (1903) a tentativas, como a de Mill, de explicar o bem em termos da produção de prazer ou felicidade, repousava na opinião de que o bem não é analisável. Moore pensava também que a análise do que queremos dizer, quando falamos em perceber o mundo externo, devia ser feita em termos da ocorrência de dados sensoriais, embora permanecesse confuso se estes eram ou não partes da exterioridade dos objetos físicos. Moore não adotou a noção de dados dos sentidos, como fez Russell, porque eles eram indubitavelmente objetos de conhecimento por familiaridade (contato direto), embora, ao apresentar a noção desses dados no Some Main Problems, falasse neles como aquilo que apreendemos diretamente. Não recorreu a eles, contudo, para provar as fundações do conhecimento. Simplesmente pensava que teríamos que invocá-los se quiséssemos analisar o que queremos dizer ao falar na percepção do mundo.

Dado tudo isso, talvez pareça surpreendente que tivesse exercido tanta influência. Esta se originou de duas maneiras: de sua mudança para o realismo e de sua concepção de ética. Nos últimos anos do século XIX, escreveu trabalhos manifestando sua insatisfação com a extensão em que Bradley se libertara do psicologismo no tocante às noções de idéia e juízo. Pensava que Bradley não deixara suficientemente claro que as questões não eram sobre o que acontece na mente do indivíduo, mas sobre o que essas idéias e juízos significam. O que sabemos e acreditamos, disse Moore, são proposições e estas envolvem conceitos – todos eles independentes do que qualquer pessoa em particular pense. Já dissemos que, mais tarde, Moore abandonou essa idéia de proposições, mas não renunciou à crença em uma realidade independente da mente. Além do mais, no “A Refutation of Idealism” (1903, incluído em seu Philosophical Studies, 1922), atacou o idealismo berkeleiano e a proposição de que ser é ser percebido, insistindo em que há uma distinção a ser feita entre, por exemplo, o amarelo e uma sensação de amarelo. Todas as sensações são formas de consciência, mas não devemos confundir esta consciência com seus objetos, que podem ser diferentes. Ter uma sensação de vermelho é perceber alguma coisa vermelha e a percepção é diferente da condição de vermelho. Grande parte dessa refutação do idealismo, com a qual mais tarde demonstrou insatisfação, constitui um apelo a algo que estamos sendo chamados a reconhecer como obviamente verdadeiro. Não é uma refutação de argumentos idealistas.

Muito da mesma coisa pode ser dito a respeito do Principia Ethica. Nessa obra, diz Moore que o fim da ética é indagar da natureza do bem. Sustenta que o “bem” é uma qualidade simples, não-analisável, não-natural, e afirma que os filósofos que tentaram analisá-lo em termos de prazer ou alguma qualidade natural desse tipo cometeram o que chama de “falácia naturalista”. Moore não é inteiramente claro no que entende como “não-natural”, exceto que uma propriedade (ou atributo) não-natural não deve ser identificado com quaisquer propriedades que objetos tenham na natureza das coisas. Acredita que o “bem” é simples porque há uma analogia entre ele e “amarelo”: não pode ser decomposto em outras propriedades, mais simples, nas quais deveria ser analisado. A tentativa de definir o “bem” em termos naturais é, assim, uma falácia e o mesmo se aplica a supostas definições do “bem” em quaisquer outros termos. Se definimos “bem” como “x” sempre permanece aberta a questão se x é um bem.

Acusa os filósofos que tentam definir o “bem” como querendo coisas incompatíveis. Querem recomendar “x” como o bem, mas também dizer que “x” é tudo que “bem” significa. Essa acusação cabe apenas, contudo, se os adversários de Moore querem realmente sustentar simultaneamente que “x” é um bem sintético e também analítico. (Moore sugere que isso acontecia com Mill, mas está longe de ser claro que tenha sido assim.) De outra maneira, como outros filósofos tentaram demonstrar, a falácia naturalista seria simplesmente um caso do que foi chamado de a “falácia definicional”. Diz Moore que se definimos o bem como prazer, então, ao dizer que o prazer é um bem estamos dizendo apenas que prazer é prazer. Mas será o caso que, se definimos um irmão como um parente masculino, estaremos, ao dizer que um irmão é um parente masculino, dizendo apenas que um parente masculino é um parente masculino? Surgem aqui os problemas envolvidos nos paradoxos da análise.

Outros filósofos deram diagnósticos diferentes do motivo porque o “bem” não pode ser definido em termos naturalísticos – como, por exemplo, que isto omitirá o elemento avaliativo em “bem”. A descrição de “bem” de Moore, como uma simples propriedade não-analisável, deixa em grande obscuridade por que alguém deve agir de acordo com o juízo de que alguma coisa é um “bem”. Embora essa parte da filosofia moral de Moore tenha obtido alguma fama na época, sua reputação caiu muito.

Por sorte, ele disse outras coisas no Principia Ethica e em um livro posterior, menor, Ethics (1912). Deu uma versão da correção de atos em termos da produção, por eles, do maior saldo do bem sobre o mal e foi, nesse aspecto, um “utilitarista idealista”. Afirmou que o estado de bem ou mal de um todo não precisa ser uma função do bem ou do mal das partes, havendo o que ele chamou de “todos orgânicos”. Alegou também que o maior bem intrínseco deste tipo envolve o prazer estético e as relações pessoais. Esta opinião foi muito bem recebida e adotada como princípio orientador pelo denominado Grupo de Bloomsbury, que, originando-se da sociedade de Cambridge conhecida como “The Apostles” (“Os Apóstolos”), aceitou Moore como seu mentor e alto sacerdote. No Ethics, ele discutiu ainda os problemas do livre-arbítrio em termos da questão de se, ou não, podemos fazer aquilo que desejamos. Mas manifestou incerteza se isso era suficiente para o livre-arbítrio ou se não devíamos perguntar também se podemos escolher. Grande parte dessa discussão, à parte a incerteza final, tem um paralelismo na de Schopenhauer, embora seja duvidoso que Moore soubesse disso.

Moore influenciou mais aqueles com quem manteve contato, incluindo Russell e Wittgenstein. Até certo ponto, isso deve ter acontecido porque ele estava sempre mais do que pronto para descobrir problemas. Sem falar nessas influências, é duvidoso se, no longo prazo, sua reputação continuará. As influências, no entanto, estão além de qualquer dúvida.

É conveniente, a esta altura, iniciar o que, do ponto de vista da filosofia analítica, é uma digressão e estudar dois filósofos que procuraram criar sistemas de metafísica segundo uma tradição não-idealista. Temos, em primeiro lugar, Samuel Alexander (1859-1938), cujo Space, Time and Deity (1920) gozou de alguma reputação nos seus dias, mas que provavelmente hoje quase não se lê. Alegou ele que a filosofia deve ser descritiva e, em certo ponto, disse mesmo que antipatizava com argumentos. Alexander foi influenciado pela biologia e pela psicologia experimental, mas, ao dar importância no seu livro à noção de espaço-tempo, afirmou que chegara às suas conclusões independentemente da física einsteiniana. Sua filosofia adota uma doutrina de evolução emergente. O espaço-tempo é o substrato do qual emergem a matéria e as coisas, em seguida as coisas vivas e a mente, estágio em que surge a consciência dos objetos, de certo ponto de vista, sendo a consciência em si algo desfrutado, não contemplado. A divindade constitui a fase seguinte no processo e as coisas tendem para ela. À parte as dificuldades de entender o que Alexander tinha em mente ao dizer isso, não é uma opinião que muitos achariam hoje interessante.

A. N. Whitehead (1861-1947), o segundo dos dois filósofos que julgamos pertinente mencionar, tampouco é muito lido na Grã-Bretanha, embora, na América do Norte, a “filosofia de processo”, como é chamada, goze de certa voga em alguns círculos. Whitehead começou sua carreira como matemático e colaborou com Russell no Principia Mathematica, mas subseqüentemente afastou-se dele. Escreveu certo número de livros, incluindo The Principles of Natural Knowledge (1919) e The Concept of Nature (1920), em que tentou criar uma nova filosofia da natureza, da qual seria derivada a teoria da relatividade. Deu grande ênfase à relação entre as coisas e se opôs a toda e qualquer forma de atomismo, mesmo o do tipo russelliano. Seres humanos são organismos naturais, relacionados organicamente com o mundo em que vivem, e percepção é o que ele denomina de “preensão” de uma parte do ambiente com que o perceptor se relaciona. Levou esta idéia mais adiante e tendeu a pensar em outras relações entre coisas, nos mesmos termos. Daí o que denominou de a “filosofia do organismo”. Achava que se seguia que as noções exatas da matemática, especialmente as de ponto ou instante, não têm lugar em nossa experiência, por mais que sejam necessárias nas ciências. Devem, apesar disso, ser definidas em relação à experiência pelo que chamou de método da “abstração extensiva” – ou aproximadamente o inverso da construção lógica.

Talvez a mais importante das idéias de Whitehead neste particular seja sua noção de eventos. Eventos têm duração e, assim, não ocorrem em um instante. Whitehead pensava que eles eram, por assim dizer, o substrato do qual era formada a natureza. Eles são particulares e, como acontecia com Bergson, embora talvez por razões diferentes, únicos. Os “objetos” estão em relação aos eventos em mais ou menos a mesma relação que as Formas platônicas estavam com o fluxo do mundo sensível. Constituem os aspectos permanentes da natureza e a relação entre eles e eventos é descrita por Whitehead ao dizer que são “ingredientes que se transformam em eventos”. A localização de um “objeto” estende-se indefinidamente por sua vizinhança na medida em que os eventos em questão se relacionam com outros. Isto traz à baila a idéia de um sistema e, em seus últimos trabalhos, ele disse explicitamente que seu objetivo era dar uma base realista a algumas das doutrinas dos realistas absolutos. Eventos ou processos, não obstante, formam a substância do sistema. Daí a noção de “filosofia de processo”.

Whitehead e Alexander sentiam admiração recíproca e ambos tendiam a apresentar suas visões das coisas como algo que o leitor era chamado a aceitar, ou pelo menos a considerar como uma descrição possível do mundo. Whitehead mudou-se de Cambridge para Londres em 1910 e tornou-se professor de matemática aplicada no Imperial College, Londres, em 1914. Em 1924, porém, à idade de 63 anos, aceitou o cargo de professor de filosofia em Harvard, onde permaneceu pelo resto da vida, aposentando-se oficialmente em 1937. Entre os livros que escreveu na América, o Science and the Modern World (1925) e o Adventures of Ideas (1933) tiveram alguma circulação e popularidade, embora sua principal obra do período, Process and Reality (1929), que seus admiradores consideram com a obra de Whitehead, foi julgada por não-admiradores como totalmente impenetrável.

Não há dúvida de que precisamos de um grande reajustamento de nossas categorias habituais para compreender Whitehead. Até mesmo o que dissemos antes sobre a relação entre eventos e objetos exige uma considerável mudança do pensamento, das tradicionais maneiras de pensar. Os “objetos” não devem ser interpretados como substâncias. São os aspectos persistentes que se juntam em um evento, dando origem dessa maneira à idéia de coisas substanciais persistentes, de maneira muito parecida como, segundo Platão, o fluxo do mundo sensível ganha ordem e quase-permanência ao ser colocado sob as Formas. Whitehead é de fato o responsável pela observação de que a história da filosofia constitui um conjunto de notas de rodapé a Platão. Isto não é realmente verdadeiro, mas há maneiras em que sua própria filosofia é justamente isso.

A despeito de alguns idealistas recalcitrantes, como H. Joachim (1868-1938) na Grã-Bretanha, e Brand Blanshard (nascido em 1892) nos Estados Unidos, o realismo, sob uma forma ou outra, foi a filosofia dominante no período até a II Guerra Mundial. Houve os chamados “neo-realistas”, particularmente R. B. Perry e E. B. Holt, nos Estados Unidos. E também C. D. Broad na Inglaterra, em Cambridge, e J. Cook Wilson, H. A. Prichard e H. H. Price, em Oxford. Pouco tiveram eles em comum, exceto a oposição ao idealismo. Prichard (1871-1947) é o mais lembrado por uma transposição das opiniões de Moore sobre o “bem” para o “deve moral” e o “dever”, sustentando que conhecemos por intuição os princípios que prescrevem o que moralmente devemos fazer, e que qualquer opinião em sentido contrário provavelmente confundiria moralidade com conveniência. Essa opinião foi desenvolvida de forma modificada por W. D. Ross (1877-1971), um ilustre erudito australiano, que argumentou que os princípios morais prescrevem o que ele chamou de obrigações prima facie – que se mantêm, permanecendo iguais outras circunstâncias – de modo que temos que decidir entre eles para chegar ao que é certo no todo.

Lançando um olhar retrospectivo para esse período, de nossa atual posição, é hoje possível concluir que as contribuições mais importantes para a filosofia do tipo mais ou menos analítico foram dadas por Wittgenstein. A fim de estudarmos sua filosofia, no entanto, torna-se necessário distinguir entre o Wittgenstein dos primeiros tempos e o da última fase. Entre estudos sobre esses dois, diremos alguma coisa sobre o movimento dos positivistas lógicos, que, corretamente ou não, tiraram parte de sua inspiração da filosofia mais antiga de Wittgenstein.

O WITTGENSTEIN DO TRACTATUS

Ludwig Wittgenstein (1889-1951) foi um austríaco de família ilustre que finalmente se naturalizou cidadão britânico. Estudou inicialmente engenharia aeronáutica e chegou à Grã-Bretanha em 1908 nessa qualidade. Estava, contudo, interessado nos fundamentos da matemática e, em 1911, Frege aconselhou-o a procurar Russell, o que fez, mantendo também contatos com Moore. Durante a I Guerra Mundial, serviu no exército austríaco e foi feito prisioneiro, em 1918, na frente italiana. Da Itália enviou a Russell seu Logisch-Philosophische Abhandlung. Publicado em uma revista em 1921, a obra foi novamente publicada na Grã-Bretanha sob o título Tractatus Logico-Philosophicus, com uma tradução inglesa paralela de C. K. Ogden em 1922. E retraduzido por D. F. Pears e B. F. H. McGuinness em 1961.

Após a guerra, ele iniciou uma vida de mestre-escola em uma aldeia austríaca, adotando um estilo ascético de vida e renunciando à filosofia. Membros do denominado Círculo de Viena dos Positivistas Lógicos, porém, vinham consultá-lo e ele, finalmente, resolveu que havia mais filosofia a estudar e voltou a Cambridge em 1929. Ensinou aí a um grupo mais ou menos exclusivo de seguidores, tornando-se professor de filosofia em substituição a Moore em 1939. Passou a maior parte da II Guerra Mundial, contudo, como enfermeiro em um hospital e, quando voltou a Cambridge, chegou à conclusão de que não gostava dessa vida e renunciou à cátedra em 1947. Passou algum tempo na Irlanda, descobriu que sofria de câncer e faleceu em Cambridge em 1951. Durante a maior parte da vida, anotou observações e, às vezes, peças mais discursivas, grande parte das quais foram publicadas desde sua morte. Mas, à parte o Tractatus, o único livro que julgou publicável foi o Philosophical Investigations, cuja primeira parte, de qualquer modo, estava mais ou menos completa quando ele faleceu. Toda ela foi publicada em 1953 em alemão, com uma tradução inglesa paralela de G. E. M. Anscombe.

Tem havido muita discussão a respeito dos antecedentes das concepções filosóficas de Wittgenstein. As influências de Moore e Russell são evidentes. Conheceu Frege e outros pensadores alemães, mas não reconheceu que possuía muitos outros conhecimentos da filosofia tradicional. A prova contida em seus cadernos de anotações revela que ele lera Schopenhauer e alguma coisa de William James. Mas pode muito bem ter conhecido mais. O Tractatus mostra algo em comum com o pensamento atomista lógico de Russell, mas não sugere os mesmos interesses epistemológicos. É uma obra fascinante mas crítica, escrita sob a forma de proposições numeradas. Há sete proposições prefixadas por números inteiros, as demais sendo antecedidas de números com casas decimais acrescidas, estas dando supostamente alguma idéia da importância da proposição em relação àquelas do mesmo grupamento numerado.

Alguma idéia do conteúdo do trabalho pode ser dada por referência às proposições prefixadas por números inteiros. A primeira diz que o mundo é tudo o que é. A segunda, que aquilo que é, isto é, um fato, é a existência de estados de coisas. A terceira, que é precedida de observações sobre a descrição de fatos, diz que uma descrição lógica de fatos é um pensamento. A quarta afirma que um pensamento é uma proposição com sentido. A quinta, que as proposições são funções da verdade de proposições elementares, que são em si funções da verdade. A sexta dá o que passa por ser a forma geral de uma proposição, através da formulação de uma operação geral que extrairá funções de verdade de outras proposições. Finalmente, a sétima, depois de algumas observações sobre a impossibilidade de elas serem proposições de ética e estética, e outras observações sobre morte, vida e misticismo, diz: “Aquilo de que não podemos falar devemos consignar ao silêncio”. A observação prévia reconhece que, segundo seus próprios critérios, todas as proposições anteriores são absurdas e devem ser usadas meramente como degraus para subir além delas.

É impossível analisar todas as complexidades do Tractatus. A última proposição implica, e as observações precedentes deixam isso claro, que aquilo que pode ser pensado pode ser dito. Daí, se a metafísica é a tentativa de mostrar a natureza da realidade como ela se revela ao pensamento, a chave para isso, na opinião de Wittgenstein, está na linguagem. Por isso a ênfase nesse ponto nas primeiras partes do trabalho. A função principal da linguagem é afirmar o que é o caso, de modo que é este último que constitui o mundo, ou realidade. O que é o caso compreende, no fundo, certo número de estados de coisas simples, que são constituídos de objetos simples e estes são representados por proposições elementares. A maneira como isto é feito (e Wittgenstein pensava que esta era a sua descoberta) é com as proposições sendo, em certo sentido, descrições de estados de coisas. Os constituintes das proposições são nomes que se referem a objetos, e a maneira como os nomes são reunidos em uma proposição é, de certo modo, um reflexo da maneira como os objetos se juntam em um estado de coisas. Esta é a denominada teoria descritiva do significado. As proposições, interpretadas dessa maneira, como representando possíveis estados de coisas, são verdadeiras se representam fatos reais e falsas em caso contrário. Mas porque há a possibilidade de que representem estados de coisas, possuem um sentido que é independente dos fatos como eles realmente são.

Em tudo isso, Wittgenstein está, na verdade, dizendo que os nomes, os constituintes das proposições, têm um significado à maneira fregeana, mas não têm sentido. Proposições têm sentido mas não significado à maneira que Frege supunha. Não obstante, é uma condição para que as proposições e, portanto, a linguagem, tenham sentido que deva haver objetos simples para os quais elas possam ser os nomes. Deve haver, por outro lado, proposições elementares, que consistem simplesmente de nomes concatenados, e que não estão em qualquer relação lógica com quaisquer outras proposições elementares. Proposições complexas, por outro lado, são construídas de proposições elementares mediante uma operação lógica única, e é evidente que, se assim é, todas as proposições complexas devem ser funções de verdade de proposições elementares. Quer isto dizer que sua verdade ou falsidade deve ser uma função da verdade ou falsidade das proposições das quais são derivadas, e delas apenas. Casos extremos disto são fornecidos por tautologias e contradições que são, respectivamente, verdadeiras e falsas, pouco importando quais sejam as verdades-valores de suas subproposições. Essas proposições nada dizem porque não descrevem qualquer estado de coisas distintivo. São, assim, sem sentido, embora não sejam absurdas.

Na introdução ao Tractatus, disse Russell que Wittgenstein estava tentando expor as condições de uma linguagem ideal. Isto não é verdade. Wittgenstein pensou que a linguagem devia realmente ser assim em sua forma analisada; tinha que ser ou não teria sentido. Que ela não é assim é claro à vista da linguagem comum, porque a complexidade desta última serve para disfarçar o fato. O objeto da filosofia é esclarecer nosso pensamento através da elucidação das proposições. Essa elucidação, pensa Wittgenstein, revela que as proposições da lógica e da matemática são tautologias, que o solipsismo é em certo sentido verdadeiro, embora coincidente com o realismo, e que a metafísica, incluindo todas as proposições do próprio Tractatus, juntamente com a ética e a estética, não solapam sua importância. Temos, como indicam as últimas poucas proposições da obra, que usá-las, para ver o mundo corretamente, reconhecendo o que não pode ser dito.

Há muito mais no Tractatus do que indicamos e não tentamos esclarecer exatamente por que Wittgenstein diz muitas daquelas coisas. Trata-se de um trabalho extraordinariamente compacto e, se o leitor quer compreendê-lo absolutamente, deve lê-lo e relê-lo com ajuda dos comentários ora disponíveis. Na década de 1920, Wittgenstein tornou-se insatisfeito consigo mesmo. Ficou infeliz com a concepção de linguagem como algo semelhante ao cálculo lógico e com a idéia de que há nomes que adquirem seu significado por correlação direta com objetos simples. É matéria de debate quanto do Tractatus permaneceu neste último pensamento. Pensou-se antes que ele desistiu de tudo, mas essa tese é hoje amiúde contestada. Mas com certeza muitos dos problemas que geraram o Tractatus permaneceram com ele.

 

O POSITIVISMO LÓGICO

 

Já dissemos que, ao tempo em que trabalhava como mestre-escola, Wittgenstein foi visitado por um grupo de filósofos que a si mesmos se denominavam como o Círculo de Viena. Foram liderados por Moritz Schlick (1882-1936), que teve a distinção, que esperamos seja muito rara, de ter sido assassinado por um aluno. Entre os membros do grupo contavam-se Otto Neurath (1882-1945), Friedrich Waismann (1896-1959) e Rudolf Carnap (1891-1970), embora inicialmente fossem 14 ao todo. Publicaram eles um manifesto sobre seus objetivos, mas houve outros em outros países, incluindo Hans Reichenbach (1891-1953) e Carl Hempel (nascido em 1905), que simpatizavam com suas idéias. Na Grã-Bretanha, A. J. Ayer (1910-89) foi mais tarde o representante do movimento. O Círculo rompeu-se quando a Áustria foi invadida em 1938 e muitos dos filósofos e ilustres matemáticos e cientistas ligados ao Círculo procuraram refúgio em outros países. Muitos deles emigraram para os Estados Unidos e, sem dúvida, influenciaram o curso da filosofia nesse país. Isto ocorreu especialmente no caso de Carnap.

Muitos dos membros do Círculo foram inicialmente cientistas e sua inspiração retroagia em grande parte a Mach. Foram em geral antimetafísicos. Diz o número 4.024 do Tractatus que compreender uma proposição significa saber o que é, se é verdadeira. Isto não diz que compreender uma proposição é saber o que a confirmaria, mas se aproxima muito. O Círculo de Viena dizia que o significado de uma proposição era seu método de verificação. Pelo menos foi isso o que Schlick alegou e que está implícito nas afirmações dos demais. A história do positivismo lógico é principalmente uma história dos argumentos sobre o que ele significa. Mas eles concordavam em que todas as proposições significativas de