OS SOFISTAS E SÓCRATES

15/05/2011 00:16

  

Uma história da filosofia ocidental

 

Uma História da Filosofia Ocidental

De D. W. Hamlyn

Jorge Zahar Editor

Tradução de Ruy Jungmann

 

OS SOFISTAS E SÓCRATES

 

OS SOFISTAS

 

No período que vimos estudando até agora foi pequeno o interesse por seres humanos, exceto como partes da natureza. Houve, é bem verdade, a ênfase pitagórica na transmigração de almas e as práticas que supostamente a facilitariam, o que indica que a vida seguinte talvez fosse superior à atual, além de preocupações semelhantes em Purificações, o poema de Empédocles. Heráclito criticou também costumes da sociedade em que viveu. Mas nada houve que realmente merecesse o nome de ética. Os atomistas, como mais tarde Epicuro, destacaram o papel do prazer como guia de conduta. Mas como foi Demócrito quem manifestou essa opinião e como, rigorosamente, não se pode incluí-lo entre os pré-socráticos, isto pode refletir os interesses de um período ligeiramente posterior – as influências dos sofistas e, quem sabe, de Sócrates.

 

A ética propriamente dita começou com Sócrates, embora os sofistas lhe tenham dado um estímulo importante. Isto a despeito do fato de que Sócrates, a julgar pelas indicações que nos dá Platão, se opunha a eles. Para seus contemporâneos, de qualquer maneira, eles provavelmente pareciam mais próximos a ele do que nos parece hoje. Os sofistas eram mestres ambulantes que davam cursos ou aulas individuais sobre vários assuntos e cobravam por esse privilégio. Alguns deles, pelo menos, parecem ter ganho bom dinheiro com essas atividades. É tentador atribuir a esse fato o desfavor em que são hoje tidos, embora seja duvidoso que cobrar honorários por serviços prestados tenha sido motivo de desaprovação para o ambiente ateniense típico de meados do século V a.C. Sócrates censurava-os porque achava que eles alegavam fornecer mais do que realmente davam. Em especial, alegava que eles diziam que podiam ensinar virtude ao homem e achava que não faziam nada disso.

 

De “sofista” deriva o termo “sofística” e é claro que, para seus contemporâneos, eles pareciam vivaldinos, mesmo trapaceiros, e usavam e abusavam de argumentos especiosos. Mais uma vez, contudo, se acreditarmos nos diálogos de Platão, os próprios argumentos de Sócrates, considerados puramente como tais, são amiúde pouco melhores do que os de seus adversários sofistas. Pouca dúvida pode haver de que os contemporâneos de Sócrates o teriam julgado tão chato a esse respeito como os sofistas. Por outro lado, muitos tributavam a todos eles uma análoga admiração prudente. Sócrates, no entanto, exercia um fascínio todo seu, como dá notícia Alcibíades no O Banquete, de Platão, e era o caráter do homem e a profundidade de sua consciência moral que o tornavam sem igual.

 

No período em que os sofistas ascenderam a primeiro plano, ocorria também uma mudança social de vulto, em que os gregos tornaram-se mais conscientes dos costumes e práticas de outros povos do mundo. O historiador Heródoto deu a volta pela bacia do Mediterrâneo e voltou contando, entre outras coisas, a variedade dos costumes seguidos pelos não-gregos. Tudo isto concentrou a atenção no quanto do mundo é, por assim dizer, obra do homem e não apenas parte da natureza. Surgiu, em conseqüência, ênfase no contraste entre o que é, neste sentido, produto humano, e o que é natural e não-humano, entre nomos (convenção) e phisis (natureza). Não está claro se os sofistas eram unânimes a respeito de tal contraste, mas notava-se certa tendência de parte deles de atribuir mais peso ao nomos em relação à phisis, se ou não por “natureza” era entendida a natureza em geral ou a natureza humana. Estabelecemos esta distinção porque, embora alguns sofistas se preocupassem simplesmente em depreciar a extensão em que o que sabemos sobre o mundo é um fato da natureza, outros, talvez entre eles Antifonte, interessavam-se pelo contraste entre o que os homens são em si, como fatos da natureza, e o que eles naturalmente desejam e se esforçam por conseguir e o que lhes é imposto pela sociedade. Neste último aspecto, despontam como os primeiros sociólogos e, com toda certeza, como os primeiros relativistas sociais. Mas os que viemos a considerar como os mais importantes entre os sofistas, Protágoras e Górgias, por exemplo, pareciam mais preocupados com a distinção entre natureza e convenção, de uma forma geral. Por essa razão, tinham como um de seus principais objetivos depreciar o estudo da natureza e, desta maneira, toda a linha filosófica existente até essa época.

 

Supostamente, Protágoras alegou que o homem é a medida de todas as coisas, tanto das coisas que são o que são como das coisas que não são o que não são. A julgar pelo Teeteto de Platão, onde se encontram estas palavras, isto significa que tudo é como parece ao homem – não apenas aos homens em geral mas a cada indivíduo em particular. Esta tese leva a um relativismo total, sem possibilidade alguma de verdade absoluta. Somos informados também do cepticismo de Protágoras no tocante aos deuses e de sua tendência de enfatizar a possibilidade de se produzirem argumentos opostos para qualquer dos lados em que fosse dividida uma questão. (Trata-se de tendência que recebeu formulação quase canônica no anônimo Dissoi Logoi – os argumentos contrários ou duplos – que aparentemente foram elaborados um pouco depois, em inícios do século VI.) A despeito de tudo isto, Protágoras nem foi iconoclasta político nem social. Na sua opinião, embora não houvesse verdade absoluta, ainda assim era possível tornar mais forte o melhor logos, ou argumento. Todos os homens possuem senso de justiça, mesmo que seus talentos em outros aspectos não sejam iguais, e constitui tarefa do sofista tirar isto para fora e, ensinando, prover os meios para sua realização.

 

Górgias foi, se possível, ainda mais radicalmente oposto à natureza e a seu estudo. Escreveu um livro no qual formulou uma tripla alegação: 1) nada há; 2) mesmo que houvesse alguma coisa, não poderíamos conhecê-la; e 3) mesmo que pudéssemos conhecê-la não poderíamos comunicá-la aos demais. Poderíamos descrever isto como um argumento mediante “retirada estratégica”: caso a posição mais radical não seja julgada convincente, volta-se para outra, menos radical. Mas até mesmo esta última elimina a possibilidade de estudo da natureza. Pelo que podemos depreender dos argumentos de Górgias expostos em trabalhos posteriores, eles não foram, como se poderia esperar, lá grande coisa e ele tendia a usar quaisquer tipos de argumentos em que podia pôr as mãos. É bem claro, no entanto, o caráter ambicioso de seu objetivo, e não menos os meios drásticos que utilizou para atingi-los.

 

Resta a possibilidade de ênfase no que é obra do homem e no que é necessário para lhe promover os objetivos na sociedade. Esta era, em grande parte, o ponto importante nos ensinamentos sofistas. A instrução podia assumir várias formas e sabemos que havia cursos de maior ou menor duração. (No Críton, diálogo de Platão, Sócrates diz que não pode pagar o curso de 50 dracmas ministrado por Pródico sobre linguagem, mas apenas o curso, ou aula, de uma única dracma!) O Protágoras, de Platão, contém maravilhosos retratos de vários sofistas em ação, e em formas diferentes – a discussão durante passeios, a aula ex-cathedra, e o emprego de perguntas e respostas. Alguns temas de estudo, como a astronomia, por exemplo, parecem ter sido científicos e o próprio Sócrates esteve vinculado a eles na mente do público. Górgias ensinava retórica, Pródico especializava-se em linguagem e gramática em geral, ao passo que Hípias ensinava o treinamento da memória. Todas estas aquisições eram úteis em uma sociedade que tanto dependia da capacidade de influenciar a opinião pública na assembléia. Por isso mesmo, o ensino era orientado para a aquisição de várias habilidades (technai) desse tipo e o cultivo no aluno daquilo que o tornasse “bom” (agathos). Este tipo de bondade não precisa ser interpretado em sentido moral, uma vez que era predominantemente uma superioridade em várias habilidades, que tornariam o indivíduo dominante em qualquer esfera em que se encontrasse. Realmente, o ideal do grego, ou, de qualquer modo, do ateniense, era ser kalagathos – não apenas excelente nesse sentido, mas também kalos (nobre). O objetivo era não só exceder em tudo a que se desse valor naquela época, mas ser como tal reconhecido por todos.

 

É bem possível que pelo menos alguns sofistas se empolgassem tanto na formulação de seus objetivos que apresentassem aquilo que os interessava como as mais importantes preocupações humanas. Platão faz com que Sócrates os caracterize dessa maneira. Mas, neste particular, é bem possível que eles tenham obtido uma imprensa desfavorável. Sócrates evidentemente pensava que havia coisas muito mais importantes que os objetivos visados pelos sofistas. Pode mesmo tê-los considerado como corruptores, embora, no A República, apresente-os como inculcando “nada mais que as opiniões da plebe”. De qualquer modo, na sua opinião, eles fracassaram em ensinar excelência moral, ou virtude. A alegação deles de ensinar arete (excelência) não apenas, na opinião de Sócrates, induzia em erro, mas corrompia também, porque sugeria que podiam produzir excelência moral, ao passo que nada faziam neste particular.

 

SÓCRATES

 

Qualquer que seja a verdade neste assunto, não há dúvida de que o próprio Sócrates era homem de caráter muito diferente do sofista ordinário. Nada escreveu. A única peça de evidência estritamente contemporânea é uma cena da comédia de Aristófanes, As Nuvens, na qual Sócrates é mostrado como um sofista preocupado com assuntos tais como a extensão do salto de uma pulga, que se encontra em uma cesta pendurada no teto, porque o ar ali é mais rarefeito. Esta caracterização, claro, tinha intenção de ser divertida e, por esse motivo, não pode ser considerada como exata (embora uma piada deva certamente ter alguma base na realidade para ser engraçada). No resto, Sócrates vive, e como vive, nas páginas de Platão, que era ainda jovem quando o conheceu. Há também descrições de Sócrates em obras de Aristóteles e outros autores, mas nenhum deles, com a possível exceção de Xenofonte, o historiador, foi testemunha de vista. Em conseqüência, o Sócrates real perdeu-se para nós e restou-nos apenas o Sócrates platônico. Platão não escreveu como documentos históricos os diálogos nos quais Sócrates comparece como principal personagem, embora, na segunda carta platônica – se for autêntica, o que talvez não aconteça – haja um gracioso cumprimento a Sócrates, seu mestre, no qual os trabalhos dele, Platão, são considerados como sendo realmente “a obra de Sócrates, nela restaurada a juventude e a beleza”. Minha opinião é que Platão pôs na boca dos personagens históricos as opiniões que ele mesmo pensou ter recebido deles, diretamente ou não. Sócrates foi com certeza a principal fonte de Platão neste particular, embora tenham sido múltiplas as influências que sofreu. É impossível acreditar, contudo, que tudo que é posto na boca de Sócrates nos diálogos tenha sido dito ou sustentado por ele, embora seja provável que, nos primeiros diálogos, haja uma relação mais estreita com as opiniões reais de Sócrates do que nos últimos e bem platônicos diálogos.

 

É relativamente pouco o que sabemos sobre Sócrates, o homem. Nascido em 470 a.C., foi executado em 399 a.C., quando Atenas perdeu a Guerra do Peloponeso contra Esparta e pouco depois do restabelecimento da democracia com a derrubada da oligarquia que tomara o poder ao fim da guerra. Acusado de impiedade em 399, no curso do julgamento, no entanto, mudou-se a acusação para corrupção da juventude. A acusação exigiu a pena de morte e os juízes, talvez irritados com a sugestão de Sócrates de que uma pena apropriada seria sua manutenção gratuita pelo Estado (sugestão que mais tarde mudou para multa), concederam-na. A defesa de Sócrates é aparentemente a que consta da Apologia, de Platão. Houve demora na execução porque um navio fora enviado em missão sagrada a Delos e nenhuma execução podia ser realizada até que voltasse. O Crífton de Platão contém uma suposta conversa entre Sócrates e Crífton, quando o primeiro foi aconselhado, na prisão, a fugir, tendo ele recusado. No Fédon, Platão conta a história do alegado último dia de Sócrates, durante o qual transcorre uma discussão entre ele e vários amigos e colegas filósofos, principalmente pitagóricos, sobre a imortalidade da alma. (Platão não compareceu, segundo se diz, por motivo de doença.) Ao fim da discussão, o carrasco traz a cicuta que, naturalmente, tinha que ser tomada pelo próprio condenado. Sócrates bebeu-a e morreu, tendo suas últimas palavras sido as seguintes: “Crífton, devemos um galo a Asclépio. Faça isso e não esqueça.” Asclépio era o deus da cura e a significação exata dessas palavras tem sido matéria de considerável debate.

 

Sócrates não provinha das camadas mais altas da sociedade ateniense. Embora cidadão, sua mãe era parteira, e a esposa, mostrada como uma megera, era vendedora de verduras. Ele alegava ouvir uma voz interior. Segundo somos informados, durante serviço militar que prestou no sítio de Potidéia permaneceu imerso em pensamentos – possivelmente em transe – durante 24 horas. Sentia um estranho fascínio por certo número de pessoas, incluindo Alcibíades, o controvertido general ateniense ao fim da Guerra do Peloponeso, que Atenas nem podia dispensar nem tolerar por causa de seu caráter infame. Mas ele se descreveu também como o moscardo de Atenas, e é desta maneira, também, que deve ter ficado grande número de pessoas – como uma fonte constante de irritação. De qualquer maneira, por uma razão ou outra, veio a ser considerado como origem daqueles aspectos da sociedade ateniense que resultaram na débâcle de Atenas na guerra – um questionador dos costumes, modos de comportamento e crenças aceitos, que os conservadores, de qualquer maneira, não conseguiam engolir. Em primeiro lugar, empregava a ironia, ou falsa modéstia, dizendo que embora os demais pensassem que sabiam das coisas, ele mesmo nada sabia. Esta era a implicação da história contada na Apologia, de que o oráculo de Delfos declarara que Sócrates era o homem mais sábio da Grécia. Sócrates, confuso com essa avaliação de sua pessoa, chegou finalmente à conclusão de que o deus dissera isso porque, enquanto ele mesmo sabia que nada sabia, outros pensavam que sabiam das coisas e isto não acontecia.

 

Em uma de suas principais doutrinas, Sócrates declara que virtude é conhecimento. Mas não está de todo claro o que queria dizer com isso. Muitas das coisas constantes dos diálogos de Platão sugerem que ele pode ter pensado que virtude era superioridade na vida e que interpretava isso em termos de habilidades, com base em analogia com vários ofícios específicos (technai). Habilidade, contudo, devia ser diferenciada radicalmente do mero jeito e Sócrates defendia veementemente essa opinião contra a alegação de Górgias, em nome da retórica, no diálogo desse nome. Platão freqüentemente ligava conhecimento e habilidade à idéia de um logos. Essa palavra grega, muito usada e altamente ambígua, significa nesse contexto algo como “princípio”, de modo que a implicação é que a habilidade propriamente dita pressupõe conhecimento dos princípios subjacentes a seu tema. O principal argumento que Sócrates é levado a argüir contra Górgias, contudo, é que retórica diz respeito a questões que se situam ao nível da cosmética. Dizem respeito apenas ao prazer e não visam a um objetivo mais sério. Portanto a principal crítica à alegação da retórica, de ser uma arte fundamental, é que a mesma não se preocupa com as coisas sérias da vida. E conhecimento, diz Sócrates, tem essa preocupação.

 

Parece haver um elemento de “definição persuasiva” na alegação de Sócrates: ele quer restringir o conhecimento a assuntos importantes e defini-los assim. Outro fator correlato é a ligação que emerge, na apresentação por Platão do pensamento de Sócrates, entre conhecimento e conhecimento de si mesmo. Sócrates manifesta profundo interesse pela injunção que estava inscrita sobre o templo de Delfos – “Conhece-te a ti mesmo”. Parece claro que Sócrates provavelmente não teria considerado alguma coisa como conhecimento a menos que tivesse relação com conhecimento de si mesmo. Daí, na medida em que virtude é conhecimento, e conhecimento implica conhecimento de si mesmo, a virtude deve envolver conhecimento e cuidado de si mesmo, da própria alma. Esta pode ser, na verdade, a mensagem principal de Sócrates e esta opinião combina com o que Kierkegaard consideraria mais tarde tão importante nele. Torna-o um profeta da introspecção e da preocupação com o ser real do indivíduo.

 

Isto, porém, não é tudo o que Platão aparentemente nele viu. Outra interpretação da história sobre o oráculo de Delfos é que, para adquirir virtude, o indivíduo deve livrar-se dos preconceitos e presunções sobre o que sabe. E era isto o que evidentemente o homem comum não conseguia fazer. Outra das doutrinas de Sócrates proclamava que todas as virtudes formam uma unidade, que não se pode ter uma delas sem possuir o resto. É levado a argumentar em defesa dessa tese com a referência à dependência de todas as virtudes sobre o conhecimento, mas, em qualquer interpretação comum, é uma doutrina severa. Teria Sócrates pensado que, se o indivíduo possuísse conhecimento propriamente dito, teria também todas as virtudes, e que ninguém poderia tê-las, nem a fortiriori qualquer uma delas, sem esse conhecimento que ele tinha em mente? Se assim, que forma devia assumir esse conhecimento? Os diálogos apresentam-no como procurando definições das várias virtudes, como se a consecução disso constituísse um passo importante no caminho para a virtude completa. Mas apresentam-no igualmente como não conseguindo chegar a essas definições, de modo que o único resultado substancial da discussão é a compreensão, de parte dos interlocutores, de que não sabiam o que pensavam que sabiam. Aristóteles mostra-nos Sócrates procurando essas definições porque elas deveriam funcionar como os primeiros princípios do raciocínio moral – as premissas, a partir das quais ele poderia chegar a conclusões sobre questões morais. Se conhecesse as definições apropriadas, o indivíduo poderia usá-las a fim de argumentar e decidir sobre o que deveria fazer em casos particulares. Isto é uma opinião rigorosamente intelectual do pensamento moral – e constitui, na verdade, a perseguição de uma quimera.

 

E é uma quimera porque nenhum princípio geral pode dizer ao indivíduo o que fazer em casos particulares. Nos diálogos platônicos, a pessoa a quem Sócrates interroga é amiúde levada a propor uma definição de uma virtude que constitui um princípio geral desse tipo. A coragem consiste em manter-se em seu lugar nas fileiras numa guerra; a justiça em pagar as dívidas que se contrai; a piedade em perseguir os acusados de ofensas contra os deuses. Há com freqüência um ambiente dramático que facilita ou provoca tal definição. Freqüentemente se diz que Sócrates observa que tal resposta é específica demais e que não faz justiça à natureza da virtude em questão. A discussão subseqüente extrai outras definições e, no curso da mesma, Sócrates expõe algumas de suas doutrinas características. O resultado, porém, é em geral negativo e os participantes da discussão vão embora em nada mais esclarecidos, à parte a compreensão de que eles, afinal de contas, não sabiam de tudo o que pensavam saber. Até esse ponto, isto é uma descrição correta do que acontece. Sócrates, porém, sugere também que as respostas dadas ao seu pedido de definição são também inadequadas como guias de conduta. Se seguimos ao pé da letra a regra de que devemos pagar as dívidas, poderemos, como indica o Livro I de A República, devolver a espada a alguém que enlouqueceu e que provavelmente iniciará uma orgia assassina. Isto não pode ser certo.

 

Cabe pensar que Sócrates não pensou que eram possíveis definições completas das virtudes morais e, destarte, de regras definidas para orientar a conduta e, daí, a conclusão negativa dos diálogos. Essa opinião concorda com a tese kierkegaardiana sobre Sócrates, a que nos referimos acima. De nada adianta procurar regras ou princípios pautadores de conduta. De maior importância, e de eficácia maior, é olhar dentro de si mesmo com o objetivo de adquirir bom caráter, de formar uma grande alma. O que quer que isto possa ser, não foi o que Platão ou Aristóteles viram em Sócrates, e o objetivo do primeiro em ética pode ser descrito como o de desenvolvimento de uma forma de conhecimento moral que possa ser aplicada a situações particulares e em contextos sociais e políticos. Se Sócrates parece céptico sobre a possibilidade de a virtude ser ensinada, em suas discussões com sofistas, de forma mostrada em Protágoras, Platão, no A República, evidentemente pensa que, dadas as apropriadas condições sociais e políticas, uma forma de educação dará às pessoas a apropriada introvisão moral e política que poderá ser, em seguida, aplicada praticamente. Em outras ocasiões, Platão revela certo pessimismo sobre a possibilidade real de que isto aconteça, embora não sugira dúvidas sobre a coerência do objetivo. Desconfio que, nestes aspectos, como aliás em outros, Platão foi um homem e um filósofo muito diferente de Sócrates.

 

Outra doutrina de Sócrates exposta por Platão no Protágoras, e no Górgias em particular, é a de que a fraqueza de caráter (akrasia) é impossível. Se um homem é levado pelas paixões a fazer aquilo que aparentemente sabe que não deve fazer, ele, para começar, não deve ter realmente possuído esse conhecimento. O conhecimento não pode ser arrastado de um lado para o outro, como se fosse um escravo, pelas paixões. Portanto, as pessoas não podem fazer o que sabem que não devem fazer. Essa doutrina combina com a preeminência dada ao conhecimento em relação à virtude. Se virtude é conhecimento, então se o indivíduo realmente sabe, ele não pode fracassar em virtude, quaisquer que sejam suas paixões. De acordo com qualquer interpretação ordinária do “saber o que se deve fazer”, parece manifestamente falso, contudo, que o indivíduo não possa simultaneamente saber o que deve fazer e agir de outra maneira. Por isso mesmo, a doutrina socrática foi uma fonte de perplexidade para outros filósofos, incluindo Aristóteles, que no fim tentou manter a doutrina mas reinterpretá-la. Desconfiamos, contudo, que se o Sócrates real, e não o platônico, sustentava essa doutrina era porque entendia por conhecimento tudo o que está implicado no “conhece-te a ti mesmo” e no papel que isto desempenha no bem da alma.

 

De modo geral, o Sócrates platônico adota também opinião austera no lugar do prazer na vida moral – exceto no Protágoras, onde, pelo menos no curso da discussão, é levado a aceitar uma forma de hedonismo. Isto pareceu surpreendente a comentaristas, tanto antigos como modernos. O fato de Sócrates ter sido levado a assumir uma atitude oposta no Górgias pode ser a razão de que escolas posteriores à filosofia moral, especialmente a Cirenaica, sob Aristipo, e a Cínica, sob Diógenes ou possivelmente Antístenes, tenham adotado posições opostas em relação ao prazer, ao mesmo tempo em que se consideravam socráticas. Isto porque os cirenaicos pregavam a busca do prazer como o fim da boa vida, enquanto que os cínicos defendiam o oposto, pregando uma opinião austera sobre a conduta. Tudo pesado, é difícil formar uma idéia segura do que era Sócrates. Tudo o que temos é o Sócrates descrito por Platão – e dificilmente podemos considerá-lo como coerente.

 

Como quer que seja, a imagem que emerge dos diálogos platônicos é de um homem estranho e feio, provocando as pessoas que encontra e colocando-as em posição na qual fazem alegações variadas sobre virtudes. O método socrático de contestar essas alegações assume a forma de rigoroso interrogatório, no qual, via de regra, Sócrates toma a palavra enquanto os interlocutores se limitam a responder “Sim” ou “Não”. Às vezes, os interlocutores, como Protágoras no diálogo do mesmo nome, protestam que não têm oportunidade de se alongar sobre coisa nenhuma. O objetivo de Sócrates, no entanto, é submeter a teste suas alegações e, no Teeteto, ele descreve sua profissão baseando-se em uma analogia com a de sua mãe – a de parteira. Sua finalidade é fazer com que nasçam pensamentos e, em seguida, examiná-los para ver se são bons pensamentos ou, como diz, meras palavras vazias. (É preciso lembrar que, segundo o costume grego, a criança fraca ou doentia em geral não tinha permissão para continuar a viver.) Essa descrição de seu método torna-o essencialmente negativo.

 

Diz Aristóteles que duas coisas podem ser, com justiça, atribuídas a Sócrates – definições gerais e argumentos indutivos. Já tentamos formar uma opinião sobre a atitude de Sócrates em relação a definições gerais. Um argumento indutivo neste contexto, como no uso aristotélico, é aquele que utiliza casos ou exemplos particulares para dar substância a algum princípio, ou moral, de natureza geral. Continuamente, Sócrates recorria a exemplos, a fim de levar o interlocutor a aceitar explícita ou implicitamente algum princípio geral. A tendência geral do argumento, no entanto, parece negativa porque o que tende a emergir é certa incoerência entre o princípio invocado e a posição inicialmente adotada pelo interlocutor.

 

Em alguns de seus diálogos, notadamente no Mênon e Fédon, Platão transforma essa prática em método de formação e teste de hipóteses. No Fédon em particular, Sócrates descreve um método mediante o qual uma hipótese é formulada e testada em seguida em busca de coerência. Se sobrevive ao teste, o procedimento seguinte consiste em derivar a hipótese de outra que seja “mais alta”, e novamente de outra “mais alta” ainda, até chegar-se a “alguma coisa adequada”. Provavelmente, o que se descreve nesse exemplo é um método para levar à convicção em algum assunto e não necessariamente um método para chegar-se à verdade. Se o interlocutor puder ser convencido a formular uma hipótese, talvez sobre o que uma dada virtude é, ela tem, em primeiro lugar, que ser submetida a teste a fim de verificar-se se é compatível em si mesma com outras convicções mantidas pelo interlocutor. Mas, supondo que o interlocutor seja céptico sobre a aceitação de tal hipótese, ela terá que ser derivada de alguma convicção que ele tenha, de modo a que Sócrates possa dizer: “Se você aceita p, então tem que aceitar q, e se aceita q então r (…) e se este, então h, que é a hipótese em estudo. De modo que você tem que aceitar h.” Na verdade, apenas incidentalmente deparamos com tais formas de argumento nos primeiros diálogos. Isso acontece porque o único ponto de convicção a que se chega nesses diálogos é que o interlocutor, afinal de contas, não sabe o que pensava que sabia. Não se chega a uma conclusão positiva.

 

Desconfiamos que a tendência geral do argumento socrático foi, na verdade, negativa dessa maneira. Este fato pode ser explicado de maneiras diferentes, mas é bem possível que isto tenha acontecido porque Sócrates pensou que o objetivo real do exercício consistia em despertar um senso moral que só podia ter origem no conhecimento de si mesmo. Para que isto se torne possível, ilusões e preconceitos têm que ser eliminados. Mas não era suficiente produzir convicção a respeito da natureza da moralidade. O indivíduo precisava possuir senso correto daquilo em que consistia a moralidade ou o que equivalia à excelência de caráter. E era a incapacidade dos sofistas de compreender isso, e o que considerava como alegação absurda dos mesmos de ensinar virtudes, que julgava tão condenáveis. Como quer que fosse, ele veio finalmente a ser considerado uma influência nociva para a sociedade e daí se seguiu a acusação de corromper a mocidade. Os filósofos, Platão em especial, tiveram dele uma opinião muito diferente e houve muitos que evidentemente o consideraram como seu “guru”. Platão, no entanto, tentou abstrair do que Sócrates tinha dizer as doutrinas mais positivas. Embora tentasse colocá-las na boca de seu biografado, a atribuição delas a Sócrates tornou-se cada vez mais implausível. Não podemos chegar a Sócrates exceto através de Platão, mas achamos que este errou tanto sobre ele como os demais. Nenhuma dúvida há de que foram filósofos muito diferentes.