A HERMENÊUTICA E OUTROS MOVIMENTOS RECENTES

A HERMENÊUTICA E OUTROS MOVIMENTOS RECENTES

                 Outro movimento influenciado, pelo menos em parte, pela concepção de Heidegger do “ser no mundo” foi o que tem sido chamado de “hermenêutica” – o estudo do entendimento através da interpretação. A idéia de que há alguma coisa especial no “entendimento”, em contraste com o conhecimento científico, retroage a Wilhelm Dilthey (1813-1911), que sustentou haver uma diferença essencial entre as ciências naturais e as culturais, tal como a história. Estas últimas dependem de um entendimento (Verstehen) de seu tema, em termos de significados e intenções de seres humanos individuais. Essa idéia foi adotada até certo ponto por filósofos da história e alguns outros interessados na ação. Talvez o principal a adotá-la, de maneira a transformá-la em uma filosofia geral, tenha sido Hans-Georg Gadamer (nascido em 1900), no seu Truth and Method (1960). A filosofia é denominada de “hermenêutica” devido à importância atribuída aos processos envolvidos no entendimento de um texto através da interpretação. Gadamer destaca o que indivíduos trazem para isso através da história. É fácil ver que isso implica um enfoque relativista da verdade.

Qualquer que seja o caso a esse respeito no tocante a Gadamer, a hermenêutica certamente produziu esse efeito sobre Michel Foucault (1926-84), que remontou a história a certo número de concepções, tais como a da loucura, de maneira a enfatizar a relatividade temporal e cultural dessas concepções. O A arqueologia do conhecimento (1969) constituiu uma tentativa de dar expressão autoconsciente a uma concepção relativista do conhecimento, de maneira tal a admitir sua própria relatividade de enfoque. Na verdade, ele considera qualquer outra abordagem do conhecimento como simplesmente uma tentativa de exercer o poder. Outro enfoque da hermenêutica, e que tem mais a ver ainda com a interpretação de textos, é encontrado nos trabalhos de Jacques Derrida (nascido em 1930). A teoria de Derrida, conhecida como “desconstrucionismo”, gira em torno da alegada necessidade de dar atenção às “diferenças” entre palavras e as expectativas que elas criam, sem levar em conta suas designações. Essa opinião interessa mais a estudiosos da linguagem e da literatura do que a filósofos, de qualquer modo a filósofos de língua inglesa, que em geral julgaram-no ininteligível.

A psicanálise exerceu também influência acentuada sobre o pensamento filosófico francês recente, começando com Gaston Bachelard (1884-1962). A outra influência dominante tem sido o marxismo. Esses movimentos, no entanto, não produziram os mesmos efeitos sobre a filosofia em língua inglesa. Dizem alguns que, neste particular, não tem havido muitos contatos culturais entre a França e a Grã-Bretanha, não obstante a presença de alguns supostos construtores de pontes, como, por exemplo, Paul Ricoeur (nascido em 1913), que pertence, se é que pertence, ao movimento hermenêutico. O mesmo se aplica em grande parte às relações entre a Alemanha e a Grã-Bretanha, embora, mais uma vez, nota-se novamente a presença de um ou dois construtores de pontes. Certo interesse pela hermenêutica foi demonstrado pelo filósofo finlandês Georg Von Wright (nascido em 1916), professor durante algum tempo em Cambridge e que, de outro ângulo, poderia ser considerado como um autêntico filósofo analítico. Na opinião de muitos, porém, a figura exponencial da filosofia na Europa é Jürgen Habermas, da Escola de Frankfurt, a quem nos referimos antes. Na Grã-Bretanha, ele exerceu mais influência sobre sociólogos do que sobre filósofos, sobretudo por causa de seu enfoque antipositivista da teoria social. Seus antecedentes são principalmente hegelianos-marxistas, mas ele tem demonstrado notável talento para colocar essa formação em relação com outros e aparentemente diferentes enfoques filosóficos – a hermenêutica, a filosofia da ciência, a filosofia da linguagem e a teoria da competência comunicativa, para mencionar apenas alguns. Não obstante, a idéia husserliana de que os homens constroem de alguma maneira seu mundo permanece e, para muitos, isso é um grande defeito.

Seria errado de nossa parte encerrar este levantamento da filosofia recente da Europa continental sem, pelo menos, mencionar uma filósofa que se coloca à parte de tudo que discutimos nestas páginas, Simone Weil (1909-43). Nos anos entre as duas guerras mundiais, ela desenvolveu uma atitude de comprometimento quase total, em primeiro lugar com a esquerda durante a Guerra Civil espanhola e, mais tarde, na II Guerra Mundial, com a Resistência. Suas obras são principalmente sociais e religiosas, demonstrando conhecimento profundo da história da cultura. A atmosfera geral de comprometimento que se espalha a partir de seus escritos pareceu atraente a alguns, mas sentimental a outros. O principal a respeito de suas idéias, contudo, é o quadro que traça de seres humanos e sua liberdade em um mundo supersocializado e industrializado. Além do mais, tanto sua vida como pensamento fornecem material considerável à ética. Permanece como figura isolada e, de certa maneira, enigmática.

Uma História da Filosofia Ocidental

De D. W. Hamlyn

Jorge Zahar Editor

Tradução de Ruy Jungmann