A RENASCENÇA

A RENASCENÇA

 Talvez pareça um paradoxo que um período que presenciou o florescimento de tanta coisa mais – da ciência, da arte, e da literatura – tenha sido também aquele em que a filosofia esteve em baixa-mar. Não obstante, isso é um fato. Ao mesmo tempo, não se pode negar que a ascensão da ciência, em particular – especialmente na pessoa de Galileu – exerceu uma influência profunda. Quando a filosofia galgou novamente as alturas no século XVII, sobretudo na pessoa de Descartes, a ciência natural tornou-se a influência dominante. Descartes representa também um rompimento com muito do que houve antes. Parte de sua linguagem e maneira de pensar lembravam a escolástica, como o estilo e o contexto institucional da filosofia característicos da Idade Média vieram a ser chamados. Suas principais idéias, porém, constituíram uma espécie de revolução na filosofia, cujas origens, como tantas outras revoluções, não são inteiramente claras. No período intermédio que se seguiu a Occam, a escolástica continuou a existir, embora não mais com a força anterior. A principal figura nesse momento foi Francisco Suárez (1548-1617), que exerceu alguma influência sobre a história subseqüente da escolástica, bem, como, com toda probabilidade, sobre Descartes. O principal interesse no período da Renascença, porém, reside em outra esfera.

Ao fim do último capítulo, mencionamos a redescoberta de Platão. Isto foi resultado de um interesse geral da Renascença pela Grécia e Roma e do florescimento dos estudos gregos em geral. Marsilio Ficino (1433-99) traduziu todos os diálogos de Platão, juntamente com outras obras gregas, incluindo trabalhos neoplatônicos. Sua interpretação dos mesmos, porém, envolvia uma mistura de pensamento cristão com idéias herméticas (associadas a Hermes Trismegisto, o “três vezes grande” Hermes, a quem foram atribuídas várias idéias teosóficas e esotéricas nos primeiros séculos da era cristã). Daí, embora as obras de Platão se tornassem novamente disponíveis em sua totalidade, seu pensamento era ainda interpretado de uma maneira que o misturava com outras coisas, especialmente com o neoplatonismo. É duvidoso que se fizesse uma distinção correta entre Platão e o neoplatonismo até o desenvolvimento da erudição clássica alemã em fins dos séculos XVIII e XIX. Ficino pregava a ascensão até Deus via contemplação, a imortalidade da alma e a doutrina do “amor platônico”, baseado no O Banquete e no Fedro, com acréscimos tirados de idéias antigas sobre amizade, e a noção de amor cortesão, respigada em Dante e outros autores. Nada disso é filosoficamente importante em si, mas exerceu influência considerável sobre um conjunto inteiro de outros pensadores e criou um modelo de interpretação do platonismo que duraria por muito tempo.

A figura mais importante de princípios da Renascença, porém, foi Nicolau de Cusa (1401-64). Ele, também, tirou numerosas idéias do platonismo e via no neoplatonismo uma doutrina que implicava uma maneira de conhecer, ou intuição, que podia transcender a razão, esta sendo limitada pelo princípio da não-contradição. Embora sejamos finitos, temos por meio da intuição um meio de chegar à infinitude de Deus, o que a razão não pode alcançar. Na opinião de Nicolau, não acontecia apenas que Deus fosse infinito, mesmo absoluta e positivamente infinito. Deus, de alguma maneira, transcendia o princípio de não-contradição, de modo a formar uma unidade que combinava todos os opostos. Esta idéia de coincidência de opostos é a principal de Nicolau. Precedentes para ela podem ser sem dúvida encontrados no neoplatonismo, especialmente no comentário de Proclo ao Parmênides, de Platão. Para Nicolau, se dizemos que Deus é maximus, o maior, temos que dizer também que ele é minimus, o menor, porque nele os opostos de alguma maneira se reconciliam. Nós, claro, não podemos compreender como isto é possível. Temos que nos aproximar de Deus pela via negativa (o caminho da negação), salientando as diferenças, gradualmente e pouco a pouco, entre ele e aquilo de que estamos conscientes no mundo.

Deus é transcendente no sentido em que o mundo de alguma maneira depende dele, mas também é, em certo sentido, imanente no mundo, embora de uma maneira, como insistiria Nicolau, que não tornava autêntico o panteísmo. O mundo, em conseqüência, também é infinito, embora não na maneira positiva como Deus é. Não é uma esfera limitada e, em conseqüência, não tem centro nem circunferência. Pode-se compreender bem que rompimento essa idéia acarretou com a visão cosmológica da Idade Média, embora coubesse a Copérnico (1473-1543) e especialmente a Galileu (1564-1642) darem substância à idéia como parte da cosmologia científica. Para Nicolau, contudo, o mundo tinha Deus como seu centro e porque Deus é imanente nele, o mundo também é unidade na pluralidade, originado da coincidência de opostos que envolve Deus. Isto é evidentemente uma forma de misticismo, mas um misticismo que, aplicado à natureza, influenciou filosofias da natureza posteriores, particularmente o romantismo alemão.

Um exemplo bem imediato disso é encontrado em Jakob Boehme (1575-1642), um místico luterano para quem Deus era o Ungrund, ou Abismo, um absoluto indiferenciado que “nem é luz nem trevas, nem amor nem ira, mas o eterno Uno”. Disse ele ter visto isso, e mais ainda, em uma visão mística. A idéia do mistério do abismo pode ter sido derivada de Paracelso (1493-1541) que, estranhamente, combinava prática médica e teoria filosófica com alquimia e astrologia, além de opiniões teológicas místicas. O filósofo mais conhecido a ser influenciado por Nicolau de Cusa, contudo, foi o italiano Giordano Bruno (1548-1600), que acabou preso pela Inquisição e foi queimado na fogueira em Roma. Suas opiniões foram evidentemente julgadas heréticas, como também, claro, as de Galileu mais tarde, embora por motivos diferentes. Bruno, tal como Ficino, fora muito influenciado pelos escritos herméticos mas também – talvez estranhamente, nas circunstâncias – por Copérnico, indo realmente além dele na rejeição da tese geocêntrica do universo. Ele considerava isso, no entanto, uma confirmação das opiniões de Hermes Trismegisto e desprezava Copérnico por ser um mero matemático. Seus diálogos sobre Causa, princípio e unidade pregam o princípio da unidade do Todo no Uno. O mundo é infinito e a seu respeito utiliza a idéia de Nicolau de Cusa sobre a coincidência de opostos. O mundo é a expressão de um mundo-alma e sua teoria neste particular é uma estranha mistura do atomismo epicurista com essa idéia de mundo-alma. Disto deriva ele a doutrina de mônadas (átomos animados) que se antecipa de certa forma à doutrina posterior de Leibniz. De outras maneiras – como, por exemplo, em sua idéia de Deus como inteiramente transcendente e, ainda assim, manifesto no mundo e como natureza – encontramos antevisões do “Deus ou Natureza”, de Spinoza. A filosofia de Bruno é evidentemente uma mistura, mas, como em outras do período, misticismo e hermetismo são grandes ingredientes da mesma.

Deve estar claro pelo que se disse até agora que a visão científica do mundo, que começava a emergir, exerceu uma influência muito variada sobre os filósofos do período. O próprio Galileu, naturalmente, era conhecido por vários interesses e indagações científicas, implicando, pela primeira vez de forma importante, a experimentação – como no caso de seu experimento com bolas que rolam a fim de confirmar a lei que rege a aceleração uniforme de corpos em queda. Embora julgasse que o universo era governado por princípios matemáticos, ele adotava uma visão essencialmente mecanicista do mundo. Aceitava um atomismo que abrangia a distinção entre o que veio a ser conhecido como qualidades primárias e secundárias das coisas: aquelas propriedades que Demócrito dissera que pertenciam aos átomos, e aquelas, como a cor, que não pertenciam e eram consideradas subjetivas. Não é talvez surpreendente que o atomismo tenha experimentado uma recrudescência durante esse período. O principal expoente da doutrina – em uma forma que retroage basicamente a Epicuro, embora com alguns ingredientes cristãos, especialmente com relação a Deus e à alma – foi Pierre Gassendi (1592-1655). A reputação de Gassendi permanece na maior parte por causa das críticas que fez a Descartes. Um equivalente inglês seu, Thomas Hobbes (1588-1679), expôs sua versão da teoria no De Corpore. O direito de Hobbes à fama, contudo, fundamenta-se mais em sua teoria sobre o homem e, em especial, em sua teoria sobre o Estado – a grande Leviatã. A este assunto voltaremos mais adiante.

 


 

Uma História da Filosofia Ocidental

De D. W. Hamlyn

Jorge Zahar Editor

Tradução de Ruy Jungmann