ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

 Aldous Huxley

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

 

"Lês utopies apparaissent comme bien pius réalisables qu'on ne lê croyait autrefois. Et

nous nous trouvons actuellement devant une question bien autrement angoissante:

Comment éviter leur réalisation définitive?...

Lês utopies sont réalisables. La vie marche vers lês utopies. Et peut-être un siècle nouveau

commence-t-il, un siècle ou lêsintellectuels et Ia classe cultivée rêveront aux moyens d'éviter lês

utopies et de retourner à une société non utopique, moins 'parfaite' et pius libre."

Nicolas Berdiaeff

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PREFÁCIO

Todos os moralistas estão de acordo em que o remorso crônico é um

sentimento dos mais indesejáveis. Se uma pessoa procedeu mal, arrependa-se,

faça as reparações que puder e trate de comportar-se melhor na próxima vez.

Não deve, de modo nenhum, pôr-se a remoer suas más ações. Espojar-se na lama

não é a melhor maneira de ficar limpo.

A arte possui também sua moralidade, e muitas das regras desta são iguais,

ou pelo menos análogas, às da ética comum. O remorso, por exemplo, é tão

indesejável com relação à nossa arte de má qualidade quanto com relação ao

nosso mau comportamento.

A má qualidade deve ser identificada, reconhecida e, se possível, evitada no

futuro. Esmiuçar as deficiências literárias de vinte anos atrás, tentar remendar

uma obra defeituosa para levá-la à perfeição que não teve em sua primeira forma,

passar a nossa meia-idade procurando remediar os pecados artísticos cometidos e

legados por aquela outra pessoa que éramos nós na juventude - tudo isso,

certamente, é vão e infrutífero.

Eis por que este novo Admirável Mundo Novo sai igual ao antigo. Seus

defeitos como obra de arte são consideráveis; mas para corrigi-los, eu teria de

reescrever o livro - e, ao reescrevê-lo, como uma outra pessoa, mais velha,

provavelmente eliminaria não apenas as falhas da narrativa, mas também os

méritos que pudesse ter tido originariamente. Assim, resistindo à tentação de

chafurdar no remorso artístico, prefiro deixar o bom e o mau como estão e

pensar em outra coisa. Entretanto, parece-me que vale a pena mencionar pelo

menos o defeito mais grave do romance, que é o seguinte: O Selvagem é posto

diante de duas alternativas apenas, uma vida de insanidade na Utopia, ou a vida

de um primitivo numa aldeia de índios, vida esta mais humana em alguns

aspectos, mas, em outros, pouco menos estranha e anormal. Na época em que foi

escrito o livro, eu achava divertida e muito possivelmente verdadeira a idéia de

que os seres humanos são dotados de livre arbítrio para escolherem entre a

insanidade, de um lado, e a demência, de outro. Contudo, o Selvagem muitas

vezes fala mais racionalmente do que, a rigor, o justificaria sua formação entre os

praticantes de uma religião que é um misto de culto da fertilidade e de ferocidade

de Penitentes. Nem mesmo o conhecimento de Shakespeare poderia justificar, na

verdade, tais manifestações. E no fim, por certo, ele é levado a recuar da sanidade

mental; o penitentismo nativo reafirma sua autoridade e o Selvagem acaba na

autotortura maníaca e no desespero suicida. "E assim morreram sempre infelizes"

- para satisfação do divertido e pirrônico esteta que era o autor da fábula.

Hoje não sinto o menor desejo de demonstrar que a sanidade é impossível.

Pelo contrário, embora continue não menos tristemente certo que no passado de

que a sanidade é um fenômeno bastante raro, estou convencido de que ela pode

ser alcançada, e gostaria de vê-la mais difundida. Por ter dito isso em diversos

livros recentes e, acima de tudo, por ter compilado uma antologia do que

disseram os sãos de espírito acerca da sanidade e de todos os meios pelos quais

ela pode ser obtida, ouvi de um eminente crítico acadêmico a observação de que

eu sou um triste sintoma do fracasso de uma classe intelectual em tempo de crise.

A inferência é, suponho, que o professor e seus colegas são alegres sintomas de

êxito. Os benfeitores da humanidade merecem as honras e a comemoração

devidas. Construamos um Panteão para os professores.

Deveria localizar-se entre as ruínas de uma das cidades destruídas da

Europa ou do Japão, e acima da entrada eu inscreveria, em letras de seis ou sete

pés de altura, estas simples palavras:

Consagrado à Memória dos Educadores do Mundo.

SI MONUMENTUM REQUIRIS CIRCUMSPICE

Mas, voltando ao futuro... Se eu reescrevesse o livro agora, ofereceria uma

terceira alternativa ao Selvagem. Entre as duas pontas do seu dilema, a utópica e

a primitiva, estaria a possibilidade de alcançar a sanidade de espírito -

possibilidade já realizada, até certo ponto, numa comunidade de exilados e

refugiados do Admirável Mundo Novo, estabelecidos dentro dos limites da Reserva.

Nessa comunidade, a economia seria descentralista e georgista, e a política,

kropotkiniana e cooperativista. A ciência e a tecnologia seriam usadas como se, a

exemplo do sábado, tivessem sido feitas para o homem e não (como no presente

e ainda mais no Admirável Mundo Novo) como se o homem tivesse de ser adaptado

e escravizado a elas. A religião seria a procura consciente e inteligente do

Objetivo Final do homem, a busca do conhecimento unitivo do Tão imanente ou

Logos, da Divindade transcendente ou Brama. E a filosofia de vida predominante

seria uma espécie de Utilitarismo Superior, em que o princípio da Maior

Felicidade ocuparia posição secundária em relação ao do Objetivo Final - e a

primeira pergunta a ser formulada e respondida em qualquer contingência da vida

seria: "De que modo este pensamento ou ato ajudará ou impedirá a consecução,

por mim e pelo maior número possível de outros indivíduos, do Objetivo Final

do homem?"

Educado entre os primitivos, o Selvagem (nesta hipotética nova versão do

livro) não seria transportado para a Utopia senão depois de ter tido a

oportunidade de aprender algo em primeira mão sobre a natureza de uma

sociedade composta de indivíduos em livre cooperação, dedicados à busca da

sanidade de espírito. Assim alterado, Admirável Mundo Novo possuiria uma

inteireza artística e filosófica (se é permissível usar uma palavra tão importante a

propósito de uma obra de ficção) que, em sua forma atual, evidentemente lhe

falta.

Mas Admirável Mundo Novo é um livro sobre o futuro e, sejam quais forem

suas qualidades artísticas ou filosóficas, um livro desse tipo só nos poderá

interessar se suas profecias derem a impressão de poderem, concebivelmente, vir

a realizar-se. Do nosso atual posto de observação, quinze anos mais abaixo no

plano inclinado da história moderna, até que ponto seus prognósticos parecem

plausíveis? Que aconteceu no penoso intervalo para confirmar ou invalidar as

predições de 1931? Uma vasta e óbvia falha de previsão é imediatamente visível.

Admirável Mundo Novo não contém nenhuma referência à fissão nuclear.

Essa omissão é, na verdade, um tanto curiosa, pois que as possibilidades da

energia nuclear tinham sido tópico comum de conversas durante anos antes de

ser escrito o livro. Meu velho amigo Robert Nichols escrevera, até, um drama de

sucesso a respeito do assunto, e lembro-me que eu próprio o mencionara de

passagem num romance publicado em fins do decênio de vinte. De modo que,

como digo acima, parece muito curioso que os foguetes e helicópteros do sétimo

século de Nosso Ford não fossem movidos por núcleos de desintegração. O

lapso pode não ser desculpável; mas é, pelo menos, fácil de explicar. O tema de

Admirável Mundo Novo não é o avanço da ciência em si mesmo; é esse avanço na

medida em que afeta os seres humanos. Os triunfos da física, da química e da

engenharia são tacitamente dados por supostos. Os únicos progressos científicos

descritos especificamente são os que se relacionam com a aplicação aos seres

humanos dos resultados de futuras pesquisas nos terrenos da biologia, da

fisiologia e da psicologia. É somente por meio das ciências da vida que se pode

mudar radicalmente a qualidade desta. As ciências da matéria podem ser aplicadas

de tal modo que destruam a vida ou a tornem impossivelmente complexa e

desconfortável; mas, a não ser que sejam usadas como instrumentos pelos

biologistas e psicólogos, nada podem fazer para modificar as formas e expressões

naturais da própria vida. A liberação da energia atômica assinala uma grande

evolução na história humana, porém não (salvo se nos fizermos saltar pelos ares

e assim pusermos ponto final à história) a revolução final e mais profunda.

Essa revolução verdadeiramente revolucionária deverá ser realizada, não

no mundo exterior, mas sim na alma e na carne dos seres humanos. Vivendo,

como viveu, num período revolucionário, o Marquês de Sade fez uso, muito

naturalmente, dessa teoria das revoluções para racionalizar seu tipo peculiar de

insanidade. Robespierre havia realizado a espécie de revolução mais superficial, a

política. Penetrando um pouco mais fundo, Babeuf tentara a revolução

econômica. Sade considerava-se o apóstolo da revolução verdadeiramente

revolucionária, que iria mais além da mera política e economia - a revolução dos

indivíduos, homens, mulheres e crianças, cujos corpos se tornariam, de então em

diante, a propriedade sexual comum, e cujas mentes deveriam ser expurgadas de

todas as decências naturais, de todas as inibições laboriosamente adquiridas da

civilização tradicional. Entre a doutrina de Sade e a revolução verdadeiramente

revolucionária não há, por certo, nenhuma relação necessária ou inevitável; Sade

era um lunático, e a meta mais ou menos consciente de sua revolução era a

destruição e o caos universal. Os homens que governam o Admirável Mundo Novo

podem não ser sãos de espírito (no que se poderia chamar o sentido absoluto da

expressão); mas não são loucos. Sua meta não é a anarquia, e sim a estabilidade

social.

É para alcançar essa estabilidade que eles realizam, por meios científicos, a

revolução última, pessoal, verdadeiramente revolucionária. Enquanto isso,

porém, estamos na primeira fase do que talvez seja a penúltima revolução. Sua

fase seguinte poderá ser a guerra atômica, e nesse caso não nos precisamos

preocupar com profecias sobre o futuro. Mas é concebível que tenhamos

bastante bom senso, se não para pôr fim a todas as lutas, pelo menos para nos

portarmos de maneira tão racional como o fizeram nossos antepassados do

século XVIII.

Os horrores inimagináveis da Guerra dos Trinta Anos constituíram-se

realmente numa lição para os homens, e por mais de cem anos os políticos e

generais da Europa resistiram conscientemente à tentação de empregar seus

recursos militares até os limites da destrutividade ou (na maioria dos conflitos) de

continuar a combater até que o inimigo fosse inteiramente aniquilado. Eram

agressores, sem dúvida, ávidos de lucro e de glória; mas eram também

conservadores, decididos a manter, a todo custo, intacto o seu mundo como um

mecanismo em condições de funcionamento. Nos últimos trinta anos, não tem

havido conservadores, apenas radicais nacionalistas da direita e radicais

nacionalistas da esquerda. O último estadista conservador foi o quinto Marquês

de Lansdowne; e, quando ele escreveu uma carta a The Times sugerindo que a

Primeira Guerra Mundial deveria ser concluída por meio de um acordo, como o

tinham sido, em sua maioria, as guerras do século XVIII, o diretor daquele jornal

antigamente conservador se recusou a publicá-la.

Os radicais nacionalistas impuseram sua vontade, com as conseqüências

que todos conhecemos - bolchevismo, fascismo, inflação, depressão, Hitler, a

Segunda Guerra Mundial, a ruína da Europa e a fome quase universal.

Supondo, pois, que seremos capazes de aprender tão bem com Hiroxima

como nossos antepassados aprenderam com Magdeburgo, podemos esperar um

período, não de paz, na verdade, mas sim de guerra limitada e apenas

parcialmente ruinosa. Durante esse período, pode-se presumir que a energia

nuclear será utilizada para fins industriais. O resultado, como é bastante óbvio,

será uma série de mudanças econômicas e sociais sem precedentes na sua rapidez

e totalidade. Todos os padrões de vida humana existentes serão rompidos, e terão

de improvisar-se novos padrões em conformidade com o fato não-humano da

força atômica. O cientista nuclear, Procrusto em roupagem moderna, preparará a

cama em que a humanidade deverá deitar-se; e se a humanidade não se ajustar -

pois tanto pior para ela. Terá de haver alguns esticamentos e algumas amputações

- o mesmo tipo de esticamentos e amputações que vêm ocorrendo desde que a

ciência aplicada realmente se pôs em marcha; apenas, desta vez, serão bem mais

drásticos do que no passado. Essas operações nada indolores serão dirigidas por

governos totalitários altamente centralizados, isso é inevitável, porquanto o

futuro imediato deverá parecer-se ao passado imediato, em que as mudanças

tecnológicas rápidas, verificando-se numa economia de produção em massa e

entre uma população predominantemente destituída de posses, sempre tenderam

a provocar a confusão econômica e social. Para enfrentar a confusão, o poder

tem sido centralizado e o controle governamental aumentado. É provável que

todos os governos do mundo venham a ser mais ou menos completamente

totalitários mesmo antes da utilização da energia nuclear; que o serão durante e

após essa utilização, parece quase certo. Só um movimento popular em grande

escala para a descentralização e a iniciativa local poderá deter a atual tendência

para o estatismo. Presentemente, não existe nenhum sinal de que venha a ocorrer

tal movimento.

Não há, por certo, nenhuma razão para que os novos totalitarismos se

assemelhem aos antigos. O governo pelos cassetetes e pelotões de fuzilamento,

pela carestia artificial, pelas prisões e deportações em massa, não é simplesmente

desumano (ninguém se importa muito com isso hoje em dia); é, de maneira

demonstrável, ineficiente - e numa época de tecnologia avançada a ineficiência é

o pecado contra o Espírito Santo. Um estado totalitário verdadeiramente

eficiente seria aquele em que o executivo todo-poderoso de chefes políticos e seu

exército de administradores controlassem uma população de escravos que não

tivessem de ser coagidos porque amariam sua servidão.

Fazer com que eles a amem é a tarefa confiada, nos estados totalitários de

hoje, aos ministérios de propaganda, diretores de jornais e professores. Seus

métodos, porém, são ainda primitivos e pouco científicos. A afirmação

jactanciosa dos antigos jesuítas, de que, se lhes fosse dado educar a criança, se

responsabilizariam pelas opiniões religiosas do homem, não era mais do que o

produto da racionalização de um desejo. E o pedagogo moderno é, com toda

probabilidade, bem menos eficiente no condicionamento dos reflexos de seus

alunos do que o eram os reverendos padres que educaram Voltaire. Os maiores

triunfos da propaganda têm sido obtidos, não por atos positivos, mas pela

abstenção. Grande é a verdade, mas ainda maior, do ponto de vista prático, é o

silêncio em torno da verdade. Pela simples abstenção de mencionar certos

assuntos, pela interposição do que o Sr. Churchill denomina uma "cortina de

ferro" entre as massas e os fatos ou argumentos que os chefes políticos locais

consideram indesejáveis, os propagandistas totalitários têm influenciado a opinião

com muito mais eficácia do que poderiam tê-lo feito pelas mais eloqüentes

invectivas, pelas mais convincentes refutações lógicas. Mas o silêncio não basta.

Se se quiser evitar a perseguição, a liquidação e outros sintomas de atrito social,

os aspectos positivos da propaganda deverão ser tornados tão eficazes como os ......

 

 

 

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