BRENTANO E MEINONG

O movimento filosófico que, na Europa continental, correu paralelo à tradição analítica na Grã-Bretanha e Estados Unidos, retroage a Franz Brentano (1838-1917). Padre austríaco treinado na escolástica e bem versado em Aristóteles, ele escreveu sobre grande número de questões filosóficas, incluindo a ética, embora seja mais conhecido pelo seu Psychology from an Empirical Standpoint (1974; A psicologia de um ponto de vista empírico). À parte o efeito que produziu sobre outros filósofos de língua alemã, exerceu também alguma influência sobre o filósofo-psicológico G. F. Stout (1860-1944) na Grã-Bretanha. Brentano defendia uma forma de psicologia descritiva, que é o que a palavra “empírico” significa no título do livro. Até certo ponto, ele se inspirou em J. S. Mill mas não lhe aceitou as opiniões sobre sensações e idéias. Na verdade, segundo Brentano, a natureza da mente é determinada por certo número de “atos” mentais. Por “ato” ele queria destacar a idéia de que a mente é dirigida para certos tipos de objetos. Distinguia três tipos de “atos” dessa espécie – a representação, o juízo e o que chamava de “os fenômenos do amor e do ódio”. Formam uma hierarquia, na qual os últimos membros do trio pressupõem os anteriores.

O aspecto mais importante de suas opiniões, contudo, foi a tentativa de definir mentalidade em termos do tipo de objeto para o qual “tendem” esses atos. Com esse fim em vista, reintroduziu a noção escolástica de um intentio animi, a inclinação da mente para um objeto. Esses objetos têm “in-existência intencional” no sentido em que possuem uma relação interna com o ato e não existem exceto nessa relação. Se julgamos alguma coisa, o juízo, como objeto do ato, existe, pouco importando se existe algum estado de coisas ou situações reais correspondentes ao juízo. A relação que existe entre nós e o objeto de nosso juízo nesse caso não é, segundo Brentano, uma relação real, e foi isso o que quis transmitir ao falar na in-existência do objeto. Achava Brentano que era a característica das coisas mentais, e de nada mais, possuir esses objetos inexistentes. Em tempos recentes, ocorreram tentativas de pôr tudo isso em uma vestimenta mais lógica e, em seguida, perguntar se o que é assim fornecido de fato constitui uma necessidade e condição suficiente do mental. Sugeriu-se que outras coisas, que não o mental, satisfazem a mesma condição, e que, de qualquer modo, não é claro que todos os eventos mentais atendam a essa condição. Não é evidente que as sensações o façam, por exemplo.

Não obstante, as teses de Brentano tornaram-se muito influentes, embora mais atenção tenha sido dada no longo período à idéia de que a consciência envolve alguma forma de direcionalidade para um objeto, do que para o que ele disse sobre estes. Imediatamente, contudo, isso não aconteceu. O primeiro filósofo a ser influenciado por ele foi Alexius von Meinong (1853-1920), que já mencionamos como tendo influído nas idéias de Russell. Meinong interessou-se principalmente pelos objetos dos atos mentais e pensou que estes podiam ser distinguidos do conteúdo dos atos e criticou Brentano por confundir os dois. Nisto sofreu a influência de um filósofo polonês, K. Twardowski. Acusou ele Brentano, na verdade, de “psicologismo” – de confundir ontologia com psicologia. Brentano, por sua vez, refutou indignado a acusação, dizendo que tudo o que Meinong – e, seguindo-o, Husserl – estava fazendo era reintroduzindo um ultra-realismo sobre universais e coisas semelhantes. Qualquer que seja a verdade neste particular, Meinong pensava que o conteúdo de um ato mental devia ser um aspecto do próprio ato e, assim, parte da psicologia. A situação difere no caso do objeto do ato. Este pode, em certas ocasiões, ser uma coisa física, mas não tem que ser. É um erro, sugeriu ele, limitar os objetos ao reino do concreto apenas. Alguns objetos de pensamento, como quadrados redondos, não existem nem podem existir, mas são ainda objetos, como também montanhas de ouro, que poderiam existir mas não existem. Portanto, objetos podem ser existir ou não.

Objetos do pensamento que dependem de outros objetos, tais como as relações entre objetos ou coisas que dependem dessas relações, subsistem. Não existem mas não são por isso menos reais. A subsistência aplica-se ao que Meinong chama “objetivos” – que são, aproximadamente, aquilo a que se referem as orações e as crenças. Correspondem a proposições objetivamente existentes, que o Moore dos primeiros tempos pensou que eram os objetos das crenças. Para Meinong, um objetivo pode ser também o objeto de um suposto e se ou não importa em um fato, é uma questão adicional. Realmente, Meinong parece ter sustentado que a factualidade de um objetivo é independente de se alguém jamais o julgou ser um fato ou não, e constitui função do fato de o objetivo ter a qualidade de “evidência”. A verdade, por outro lado, depende de alguém realmente a sustentar. Mas a evidência, ou o que talvez fosse melhor chamar de “evidencialidade”, o caráter auto-insunuante de um objetivo, se deve equivaler a um fato, é inteiramente independente do reconhecimento de alguém. Esta distinção entre verdade e fato é muito curiosa.

O objetivismo de Meinong atraiu o Moore e o Russell dos primeiros tempos e, conforme já indicamos, suas proposições não diferiam muito dos objetivos de Meinong. Ambos os filósofos, no entanto, acabaram por abandonar essas idéias, Moore sobre o fundamento de que não achava que fossem proposições nesse sentido, e Russell alegando que a “selva de Meinong”, como veio a ser chamada, não revelava um senso de realidade suficientemente robusto. A maioria dos filósofos dos países de língua inglesa conhece Meinong apenas através de Russell - a despeito do Meinong’s Theory of Objects (1933), de J. N. Findlay, e, mais recentemente, do Meinong (1974), de Reinhardt Grossman. Entre suas obras principais, o On Supposals (1902) foi recentemente traduzido para o inglês, mas a maioria de seus trabalhos continua sem tradução.

 

Uma História da Filosofia Ocidental

De D. W. Hamlyn

Jorge Zahar Editor

Tradução de Ruy Jungmann