CEPTICISMO

CEPTICISMO

 

 

Entrementes, a filosofia helenística dominante era a da Escola Céptica, fundada por Enesidemo por volta do ano 80 a.C. Ele pode ter sido membro da Academia e talvez a tenha deixado quando Filo, o chefe da escola antes do cisma liderado por Antíoco, mostrou-se dogmático demais para seu gosto. A escola postulava suas origens em Pirro e alegava mesmo uma linha de descendência de suas idéias através de mestres sucessivos. É provável, no entanto, que só com Enesidemo tenha se desenvolvido uma doutrina céptica sistemática, que recebeu uma codificação mais extensiva de Sexto Empírico no século II d.C. Enesidemo formulou dez argumentos, ou “modos”, com a finalidade de demonstrar que o indivíduo devia suspender os juízos. Este é o objetivo da filosofia céptica, uma vez que seus adeptos julgavam que apenas a suspensão dos juízos poderia levar à tranqüilidade da mente. Diziam os cépticos que, de acordo com o significado etimológico da palavra skepsis, eles eram indagadores. A indagação deles, no entanto, levava à conclusão de que desde que as aparências entram em conflito, não pode haver acesso à verdade independentemente das aparências. A atitude correta a adotar, por conseguinte, era a epoché (suspensão do juízo). Diziam eles que isto produzia ataraxia (tranqüilidade da mente) e consideravam isto como uma oportunidade de descoberta, traçando uma analogia com o pintor Apeles, que, incapaz de produzir o efeito de espuma na boca de um cavalo, lançou sua esponja sobre a tela e acidentalmente conseguiu o próprio efeito que não pudera obter de outra maneira.

 

Todos os dez tropos, ou modos, de Enesidemo enfatizam o que se tornou conhecido como relatividade perceptual. Frisava ele as diferenças entre as aparências por causa de: 1) diferenças entre animais; 2) diferenças entre seres humanos; 3) diferenças entre órgãos dos sentidos; 4) diferenças entre as circunstâncias da percepção; 5) diferenças em posição, distância e lugar dos objetos; 6) diferenças em contexto e relação com outras coisas; 7) diferenças em grau de quantidade ou qualidade no tocante a objetos; 8) a relatividade das coisas; 9) diferenças na freqüência de ocorrências; e 10) diferenças em costumes e convenções. O objetivo geral desses argumentos é solapar a alegação de possibilidade de verdade absoluta sobre o mundo. Tudo o que temos em nos louvar são aparências e por isto é entendido não apenas impressões sensoriais mas tudo que nos parece ser o caso em uma dada ocasião. Supostamente, interpretar as aparências dessa maneira fora o que pautara a vida de Pirro e que trazia tranqüilidade.

 

Um céptico de época posterior, Agripa, que provavelmente viveu no século I d.C., substituiu esses dez tropos, que são evidentemente de valores desiguais para o fim colimado, por cinco de sua autoria. Estes cinco, porém, eram de um tipo diferente dos dez iniciais. Parecem considerações que devem levar um adversário à suspensão do juízo. Esta deveria ocorrer nos casos em que se declarasse um desacordo, em que as considerações conduzissem a um retrocesso, houvesse relatividade no juízo, este dependesse de suposições e descambasse em argumentos em círculo vicioso. No intervalo entre Enesidemo e Agripa, deve ter havido discussões com interlocutores que os cépticos julgavam dogmáticos, com o resultado de se colocar ênfase nos defeitos de argumentos que os primeiros viam nos dos segundos. Realmente, boa parte das obras de Sexto Empírico é dedicada a tais críticas, muitas das quais, importa reconhecer, têm valor duvidoso. Houve argumentos desse tipo a respeito, por exemplo, a tentativa de especificar as causas das aparências, especialmente quando as causas em questão eram supostamente encontradas em fatos sobre a natureza que transcendiam as aparências.

Mais tarde outros cépticos, talvez especialmente Menodoto, um médico empirista que talvez tenha sido mestre de Sexto Empírico, reduziu os tropos a dois apenas. Mas o que parece que isso implica é um dilema geral com que os cépticos confrontavam seus adversários. Todas as coisas são conhecidas em si mesmas ou através de outras. A primeira condição, porém, é impossível, como indicaram os desacordos entre os dogmáticos, e a segunda porque a primeira ponta do dilema aplica-se também a essas outras coisas ou surge um retrocesso infinito ou um argumento em círculo vicioso. Este dilema evidentemente depende de considerações aduzidas nos tropos anteriores, de modo que estes dois tropos finais parecem o sumário das discussões, inúmeras, que os cépticos tiveram com os dogmáticos. A conclusão a que chegaram foi que elas “nada resolviam”. A única atitude correta era a suspensão do juízo, contentando-se o indivíduo com as aparências, e isto, alegavam eles, levava à felicidade. Hegel pensou que os antigos cépticos foram os únicos autênticos, no sentido em que os de seu próprio tempo queriam pôr em dúvida algumas coisas apenas para assumir postura dogmática em relação a outras. Há alguma verdade nisto, ou haveria, se os antigos cépticos tivessem vivido, como diziam, de acordo com seu cepticismo. É mais do que duvidoso que eles pudessem ter feito isso ou, na verdade, que alguém pudesse.

 Uma História da Filosofia Ocidental

De D. W. Hamlyn

Jorge Zahar Editor

Tradução de Ruy Jungmann