EPICURO

EPICURO

 A Escola Epicurista foi filosoficamente a menos interessante, se o debate é considerado como a coisa mais importante. Epicuro sofreu grande influência de Demócrito e sua principal teoria a respeito do mundo físico foi estritamente atomista, diferindo apenas em detalhes das idéias de Demócrito. A escola teve uma reputação concentrada em si mesma e até de sigilo, talvez, demonstrando pouco interesse pelos assuntos do mundo em geral, mas muito pelas relações entre os filósofos que a constituíam. A doutrina atomista – a tese de que tudo no mundo é constituído de átomos indivisíveis que formam compostos cada vez maiores no vazio infinito – foi proposta não apenas como descrição correta da natureza do mundo, mas também como trazendo uma mensagem para os seres humanos. Epicuro pensava que os átomos caem através do vácuo e que compostos são criados por colisões devidas a minúsculos desvios, por átomos individuais, de seus respectivos cursos. Lucrécio, o poeta romano que escreveu em verso o De rerum natura, mais ou menos no ano 55 a.C., como uma exposição da filosofia epicurista, usa o desvio, ou mudança de direção, como explicação também do livre-arbítrio, quando ele ocorre entre os átomos dos quais a alma é constituída. É provável que Epicuro pensasse de maneira parecida; o livre-arbítrio seria um produto da aleatoriedade, uma solução do problema da livre escolha em um mundo determinista que um pouco de estudo deve mostrar que é irrealizável.

A mensagem principal para a humanidade, contudo, é sumariada no “remédio quádruplo” recomendado por Filodemo, filósofo posterior e contemporâneo de Lucrécio. Os deuses não têm interesse por nós, a morte nada é para nós, o prazer é fácil de obter e a dor não dura muito. Os deuses não se interessam por nós, na opinião de Epicuro, porque são, como tudo mais, compostos de átomos, mas vivem em partes do vácuo livres de átomos e, assim, não são fustigados por eles. Desfrutam, dessa maneira, uma espécie de imortalidade condicional ao preço de existirem inteiramente separados dos seres humanos. Podem ser objetos de maravilha, mas não podem interferir em nossas vidas. A morte nada é para nós (nas próprias palavras de Epicuro) porque ela é simplesmente a dissolução dos átomos dos quais (corpo e alma) somos compostos e, assim, não há pós-vida para causar preocupação. Nem todos acharam consoladora essa visão de morte (embora Schopenhauer e, através dele, Wittgenstein, tenham-na aceito).

O prazer surge, como de fato também a dor, com a ação de átomos sobre outros átomos do corpo e da alma. O prazer, portanto, é um fato natural da vida. Mas que a dor não dura muito, em comparação com o prazer, só pode ser aceito como observação empírica, e talvez de natureza duvidosa. Os desejos cuja satisfação levam a prazeres, que são simplesmente a eliminação da dor, são naturais e necessários. Mas há outros também que são naturais, mas não necessários, e outros que nem são uma coisa nem outra. É a busca do primeiro que deve constituir nosso objetivo principal. Porque o prazer é, no fundo, um fenômeno natural, mesmo que alguns possam ser classificados segundo certo padrão como antinaturais (e, cabe supor, em um sentido diferente de “natural”), está dentro de nossas possibilidades atingir o limite do prazer. Tudo isto tem a intenção de demonstrar que a boa vida é realizável e, pensa Epicuro, deve ser nosso objetivo. A moralidade pode ser uma condição necessária para se alcançar o máximo prazer, mas ela nada seria se não o produzisse. A meta final da sabedoria é a ataraxia (ausência de ansiedade) e há, por conseguinte, um sentido em que o homem sábio pode ser considerado feliz mesmo quando supliciado na roda. A vida concreta praticada por Epicuro, e a que julgava a melhor, era relativamente privada, baseada na amizade. A moralidade importava para isto simplesmente porque através dela poderia ser atingida a ataraxia. A morte dele, segundo todos os relatos, foi de extrema dignidade, a despeito de intensa dor.

A epistemologia de Epicuro é coerente com o que se disse acima. Da mesma maneira que, no campo da ética, ele tenta basear tudo no que é natural em seres humanos, especialmente em vista de sua opinião sobre aquilo em que devem consistir, sua versão de conhecimento (a denominada kanonike – a teoria dos cânones do juízo) depende inteiramente da mesma versão do que é natural. Conta-se que ele disse que todas as percepções são verdadeiras e houve, de fato, alguma discussão sobre o que quis dizer exatamente com isso. Pode ter pelo menos pensado, como diz em outro contexto, que não há outra fonte de conhecimento, ou controle do juízo, que as percepções que nos chegam pelos sentidos. Isto é produzido simplesmente pela ação de átomos sobre outros que constituem os órgãos dos sentidos e a alma. É bem verdade que, na percepção, dependemos também do que ele chama de “preconcepções”, ou conceitos derivados de sensações e armazenados na mente, mas elas não são uma fonte de conhecimento sobre o mundo, independente da percepção. Não há outra fonte de tal conhecimento, à parte o contato com os átomos do mundo, que os sentidos tornam possível. A teoria de conhecimento de Epicuro, portanto, é inteiramente empírica, dependendo ela em tudo de processos naturais e causais que afetam os órgãos dos sentidos. Quando era necessário ir além do que os sentidos nos dizem, contudo, Epicuro aparentemente não possuía teoria sobre a maneira como deveríamos chegar à verdade. Sua descrição de fenômenos celestiais oferece uma grande variedade de possíveis explicações, de uma maneira que sugere que tudo o que o interessava era a coerência deles com a percepção pelos sentidos e nada mais.

 Uma História da Filosofia Ocidental

De D. W. Hamlyn

Jorge Zahar Editor

Tradução de Ruy Jungmann