HUSSERL

HUSSERL

 A situação é diferente no caso de Edmund Husserl (1859-1938), embora suas idéias tenham recebido muito mais atenção nos Estados Unidos do que na Grã-Bretanha. Suas principais obras foram traduzidas para o inglês e é pelo menos possível a filósofos de fala inglesa, sem conhecimento do idioma alemão, conhecer algo de sua filosofia, mesmo que não lhes permita compreender por que ela se tornou o movimento dominante na Europa.

Husserl começou a vida como matemático, mas caiu sob a influência de Brentano e seu primeiro trabalho, The Philosophy of Arithmetic (1891, A filosofia da aritmética) foi uma tentativa de derivar aritmética e lógica da psicologia. Esta idéia provocou grandes críticas de Frege e, daí em diante, Husserl tornou-se adversário do “psicologismo”, embora não exatamente da mesma maneira que Frege. No seu Logische Untersuchungen (1900-1, Investigações lógicas), que reescreveu em 1913, quando havia até certo ponto mudado seus pontos de vista, Husserl atacou a visão empirista de lógica do tipo que encontramos em J. S. Mill, alegando, com justificação, que é impossível derivar significados de experiências puramente psicológicas, de que dependem os empiristas. Ele, porém, não via a lógica tampouco como puramente formal, e outras partes do Logical Investigations tratam de coisas tais como as relações entre o todo e as partes, relações que diz dar forma aos objetos, como eles se revelam à consciência, e têm um caráter necessário. Afirmou que a fim de formar uma idéia clara sobre esses assuntos é necessário usar o que denominou de “método fenomenológico”. Inicialmente, considerara a fenomenologia como uma forma de psicologia descritiva, embora não, em contraste com Brentano, de natureza empírica. Mas, gradualmente, veio a julgá-la independente de considerações meramente psicológicas. É de fato claro que isto deve ser verdade se os objetos da fenomenologia devem estar em quaisquer relações necessárias.

No Ideas (1913, tradução inglesa de 1931), ele expôs inicialmente o método de epoché (termo derivado dos cépticos gregos, que o usavam para referir-se à suspensão do juízo. Husserl descreve o que acha que está envolvido nisso em termos da noção de “pôr entre parênteses”). É necessário, quando se estuda qualquer fenômeno, pôr entre parênteses as proposições com as quais chegamos a ele e, destarte, tentar vê-lo como é em si mesmo. O que veremos então é uma essência, que é um objeto de intuição para nós. Daí o objetivo da fenomenologia é fornecer essas intuições de essências – o noemata da qual a consciência é a noesis. Mais tarde, veio a pensar que sua opinião estava incompleta, porquanto não proporcionava uma teoria adequada da relação entre essências e o mundo comum, no qual nos encontramos. Em conseqüência, insistiu na aceitação do que chamou de “fenomenologia transcendental”. Esta devia ter a mesma relação com as ciências, como as entendia, que a filosofia transcendental de Kant tivera com a ciência de seu dia. Neste arcabouço o isolamento com parênteses recebeu um papel mais radical. No Cartesian Meditations (1931, Meditações cartesianas), usou-o com um fim em vista semelhante ao do método da dúvida de Descartes. Temos que pôr entre parênteses o mundo real e tentar chegar a algo que não possa ser assim isolado. Desta maneira, veremos que a consciência em si é o único absoluto. A consciência pode pressupor um ego, mas é um ego transcendental e a fenomenologia transcendental é uma descrição dos objetos internos da consciência de tal ego.

Tudo isso revela uma crescente tendência para uma forma de idealismo, seguindo o tradicional modelo alemão. Isto alienou alguns seguidores de seu pensamento dos primeiros tempos, embora husserlianos persistentes tenham negado que o desenvolvimento do pensamento de Husserl tenha negado que houvesse tal tipo de resultado. Em alguns de seus trabalhos posteriores – como, por exemplo, Formal and Transcendental Logic (1929, Lógica formal e transcendental), The Crisis of European Sciences and Transcendental Phenomenology (seu último trabalho, publicado em 1936, A crise das ciências européias e a fenomenologia transcendental), e uma compilação de trabalhos organizada por Ludwig Landgrebe e publicada em 1938 após a morte de Husserl, intitulada Experience and Judgement (Experiência e juízo) -, há uso considerável da noção de “mundo da vida”. Poder-se-ia pensar que isto tem alguma semelhança com a noção de formas de vida de Wittgenstein e que seja usado de maneira semelhante. A semelhança não é, contudo, tão grande como possa parecer à primeira vista. Não há dúvida de que Husserl sugere que aquilo que chama de “mundo pré-dado”, o mundo das percepções dos sentidos e da ciência, deriva do “mundo vital original”, mas este, por seu turno, deriva de alguma maneira de “operações subjetivas” – idéia esta muito não-wittgensteiniana.

Há alguma semelhança entre o pensamento de Husserl e a “epistemologia genética” do psicólogo Jean Piaget (1896-1980), embora o primeiro não tenha compreendido, em sentido temporal, os processos de derivação que mencionamos, de modo que pudessem ser aplicados ao desenvolvimento do indivíduo. A versão de Husserl tinha a intenção de ser transcendental em um sentido mais kantiano. É claro, ou relativamente claro, do que dissemos, contudo, que Husserl considerava o mundo como, em certo sentido, uma construção. Esta idéia saturou muito, embora não toda a subseqüente filosofia européia. Exerceu também profunda influência sobre parte do pensamento sociológico, em particular através de Alfred Schutz (1899-1959), embora ele, depois de emigrar para os Estados Unidos, tenha reconhecido a influência do behaviorista social G. H. Mead (1963-1931). (A despeito das diferenças entre os antecedentes de Schutz e Mead, o pensamento de ambos incluiu em comum a tentativa de argumentar a partir do “eu” para o “nós” – o mundo social -, e deste para tudo mais.) As mesmas influências husserlianas são evidentes na “teoria crítica” de Jürgen Habermas (nascido em 1929), da Escola de Frankfurt, embora, no seu caso, muito seja derivado também do Marx “hegeliano”, e, assim, há também ênfase na práxis.

Uma História da Filosofia Ocidental

De D. W. Hamlyn

Jorge Zahar Editor

Tradução de Ruy Jungmann