kANT

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KANT

 

Immanuel Kant (1724-1804) foi o grande gigante da filosofia do século XVIII e, defensavelmente, da filosofia em geral. A despeito disso, sua vida foi quase banal. Nasceu em Königsberg, na Prússia, onde seu pai era seleiro. Depois de cursar o que foi, na verdade, apenas uma escola primária, conseguiu finalmente matricular-se na universidade de sua cidade natal. Depois de um período como Privatdozent, durante o qual viveu em extrema pobreza, tornou-se professor de lógica e metafísica na universidade, ocupando essa cátedra até três anos antes de sua morte. Continuou solteirão, embora se diga que gostava de companhia, especialmente de mulheres bonitas e educadas. Conta-se que ele foi um conferencista interessante, embora ninguém pudesse adivinhar isso à vista de seus trabalhos publicados, que são difíceis e secos, tanto em estilo como em conteúdo. Ele dava passeios diários regulares, e isso com tal precisão que as pessoas podiam saber qual era a hora do dia apenas vendo-o passar. Durante toda sua vida, raramente saiu de Königsberg. É difícil concluir que moral tirar de tudo isso, embora, por consentimento geral, a grandeza de Kant como filósofo supere tudo isso.

Escreveu certo número de obras menores no início de sua carreira, que vieram a ser conhecidas como escritos pré-Crítica. Em seguida, após um período de silêncio, publicou em 1781 sua Crítica da razão pura, uma segunda edição da qual, com substanciais revisões, veio à luz em 1787. A Crítica da razão pura foi a primeira de três Críticas, sendo a segunda a Crítica da razão prática (1788), que trata da ética. Ele publicara antes, em 1785, o Fundamentos da metafísica da moral, uma obra muito mais curta, que recebeu muito mais atenção do que a segunda Crítica. A terceira Crítica – a Crítica do juízo – surgiu em 1790 e concentrava-se em grande parte na estética, embora tratasse também de teleologia. Em 1783, escrevera também o Prolegômenos de qualquer futura metafísica, que publicou entre as duas edições da primeira Crítica e que se destinava a tornar mais acessíveis suas idéias. Entre outras coisas, escreveu ainda sobre religião, política e o que era então conhecido como antropologia – a psicologia empírica do tempo. O núcleo de sua obra, porém, está nas três Críticas, particularmente na primeira.

O IDEALISMO TRANSCENDENTAL

            O título da primeira Crítica revela, de certa maneira, seu objetivo. Kant, conforme foi observado em capítulo anterior, disse que fora Hume quem o acordara de suas modorras dogmáticas. Não está inteiramente claro o quanto leu de Hume, mas foi o suficiente para lhe despertar dúvidas sobre a filosofia ensinada em sua época, e que era em grande parte leibnizeana graças à influência de Christian Wolff. A leitura inspirou-lhe a pergunta “Como é possível a metafísica?”, e a resposta da primeira Crítica é que, se a metafísica especulativa tenta ir além dos limites impostos pela natureza do entendimento humano, ela não é possível. Tentativas nesse sentido acabam simplesmente em contradições ou em incoerências análogas. Qualquer futuro da metafísica, por conseguinte, devia limitar-se ao que há dentro das fronteiras do entendimento humano. A sua própria “filosofia crítica” exibe a forma que tal metafísica deve assumir, se absolutamente. A ênfase nos limites do entendimento é herança de Hume e de outros empiristas britânicos, deles derivando Kant boa parte de seu aparelhamento epistemológico. Sua própria epistemologia, contudo, não é empirista, pois procura meter uma cunha entre o empirismo e o racionalismo que o precedeu. Isto é evidente nas palavras iniciais da Introdução à primeira Crítica: “Não pode haver dúvida que todo nosso conhecimento principia com a experiência (…) Mas embora todo ele comece com a experiência, não se segue que tudo nasça da experiência.”

Não é claro que todos os empiristas que estudamos tenham dito que todo conhecimento nasce da experiência, embora, de fato, dissessem que todas as idéias derivam da experiência. Kant não aceitava isso. Juntamente com racionalistas como Leibniz, acreditava que algumas de nossas idéias são a priori, independentes da experiência, no sentido em que seu conteúdo não é derivado exclusivamente do que é fornecido pela experiência. Não obstante, a citação inicial deixa bem clara sua posição no tocante ao conhecimento. A experiência é uma condição necessária da possibilidade de conhecimento, mas não suficiente. Por outro lado, a faculdade de compreender, em virtude da qual formulamos juízos ou julgamentos sobre o mundo, colocando experiências sob conceitos, necessita da faculdade da sensibilidade para fornecer essas experiências. O declarado objetivo de Kant é solapar as alegações de uma suposta faculdade de razão pura, que poderia chegar às verdades sobre o mundo ou sobre a realidade independentemente da experiência. Ainda assim, quando fazemos julgamentos sobre o mundo, o entendimento depende de certos conceitos ou categorias formais e a priori, e estas são a origem dos princípios que devem ser observados para colocar as experiências sob os conceitos no juízo, se queremos que esses juízos sejam objetivos.

Este é o esqueleto do pensamento de Kant, e provavelmente ficará relativamente destituído de sentido a menos que revestido de um pouco de carne. Ainda assim, devem ficar claras as duas posições extremas a que Kant se opõe: que todos os conceitos e todos os conhecimentos derivam da experiência; e que não apenas alguns conceitos, mas também alguns conhecimentos, podem ser inteiramente independentes da experiência. (Seria irrealista considerar como o extremo no segundo caso a tese de que todos os conceitos e todo o conhecimento são independentes da experiência. Ninguém poderia plausivelmente sustentar isso.) Sua própria posição epistemológica implica aceitação da doutrina empirista, de que recebemos informações sob a forma de impressões. Kant denomina essas impressões de representações (Vorstellungen), ou intuições sensíveis. O conteúdo de uma representação constitui sua matéria, mas todas as representações têm também uma força espaço-temporal. Isto é um a priori no sentido em que a espacialidade e temporalidade da representação não são, por assim dizer, construídas de outras impressões que, conforme Hume deixou claro, teriam que ser não-estendidas ou semelhantes a pontos. Espacialidade e temporalidade são pressupostas ao se ter uma representação. Embora essas representações tenham conteúdo, elas não importam em conhecimento, a menos que sejam postas sob conceitos nos juízos. E é este que é epistemologicamente básico. Em uma observação famosa, disse Kant: “Pensamentos sem conteúdo são vazios e intuições sem conceitos são cegas”. Os empiristas haviam dito muito pouco, se é que alguma coisa, sobre juízo e não deve ser subestimada a importância da ênfase de Kant sobre o mesmo.

Não obstante, a aceitação por Kant de grande parte da aparelhagem epistemológica dos empiristas, particularmente da tese sobre representações, afeta o resto de sua filosofia. Isto porque se a sensibilidade nos fornece apenas representações, temos, na melhor das hipóteses, apenas acesso indireto ao chamado mundo externo. Essa visão implica uma forma de idealismo. A tese de Kant é que temos que supor que as representações são, de alguma maneira, devidas ao que ele chama de coisas-em-si, mas não podemos ter conhecimento delas. Na verdade, há trechos em seus trabalhos em que ele fala na idéia da coisa-em-si como um conceito limitador – um conceito que temos que pressupor no interesse da completeza, mas cujo conteúdo é puramente negativo. Dado isto, a posição de Kant nem é um idealismo berkeleiano, que ele critica na parte da Crítica da razão pura intitulada “A Refutação do Idealismo”, nem um realismo direto. Kant denomina sua postura de “idealismo transcendental”.

A palavra “transcendental” precisa ser distinguida de “transcendente”. Presumir que há conhecimento que é transcendente será o mesmo que supor que o conhecimento pode ir além dos limites da experiência, e isto ele julga impossível. O conhecimento é transcendental “caso se ocupe não tanto com objetos mas com o modo de nosso conhecimento dos objetos, na medida em que este modo de conhecimento deve ser possível a priori”. Assim, dizer que o idealismo é transcendental implica dizer, nas próprias palavras de Kant, “as aparências devem ser consideradas como sendo, todas elas, apenas representações, não coisas-em-si, e que tempo e espaço são, por conseguinte, apenas formas sensíveis de nossa intuição, não determinações dadas como existindo por si mesmas, nem condições dos objetos vistos como coisas-em-si”.

O problema é como interpretar isso de maneira a torná-lo diferente do idealismo empirista berkeleiano. Diz Kant que o idealismo transcendental é compatível com o realismo empírico. Segundo esta última opinião, há uma distinção na experiência entre coisas tais como objetos materiais e espaço e tempo, e coisas meramente mentais, tais como sensações, imagens e sonhos. Desse ponto de vista, as primeiras coisas são reais e, as meramente mentais, não. Mas do ponto de vista das condições de possível experiência de coisas que parecem reais – as “aparências” do trecho citado acima – são ideais. São, por assim dizer, funções da mente humana e da sensibilidade, em contraste com as coisas-em-si. Nossa distinção comum entre aparência e realidade deve ser feita apenas nas representações.

            Kant enfatiza o idealismo transcendental e sua coerência com o realismo empírico especialmente em conexão com o espaço e o tempo, que considera como formas a priori de experiência. Do ponto de vista da experiência, espaço e tempo são reais, não meras aparências; constituem, apesar disso, uma forma a priori de experiências, de intuições sensíveis e não se aplicam às coisas-em-si. No prefácio à segunda edição do Crítica da razão pura, Kant compara seu ponto de vista com o da inversão copernicana de versões prévias da relação entre observadores na Terra e em corpos celestiais. Sua peculiar assim chamada “revolução copernicana” envolve conceber os objetos como conformando-se à nossa “faculdade de intuição” e não conceber intuição como conformando-se aos objetos. Se assim, os objetos nada mais são do que aquilo que nossas intuições sensíveis representam para nós. São representações sujeitas às condições a priori que as formas de espaço e tempo determinam.

O idealismo transcendental, por conseguinte, pressupõe uma distinção entre o que Kant chama de phenomena (aparências) e noumena (realidade inteligível). Objetos, da forma que se revelam à experiência, são fenômenos. No que interessa à nossa experiência, os noumena, como objetos, constituem uma mera possibilidade, porque se fossem uma possibilidade real para nós haveria uma intuição deles. Não há tal coisa no que nos interessa e este é o motivo por que um noumenon deve ser tomado negativamente, e não positivamente. Não obstante, os fenômenos existem por causa das coisas-em-si e estas são noumena. Surge então a questão das condições às quais os fenômenos têm que se conformar a fim de serem objetivos, em contraste com os meramente subjetivos. Essa questão ocupa a maior parte da seção do Crítica da razão pura conhecida como “Analítica”. Ela expõe uma teoria de juízo e suas pressuposições, bem como outra sobre o ser ou sujeito que faz tais julgamentos. A fim de ser expressável em juízos objetivos, a experiência tem que ser organizada de tal forma que seja de um objeto e pertença a um objeto. Estes são os dois lados, objetivo e subjetivo, do que Kant chama de “unidade transcendental da apercepção”. Mas da mesma maneira que não há acesso às noumena que se escondem por trás de phenomena, não há tampouco acesso ao ser noumenal, o ser real, para o qual os phenomena são aparências. Ainda assim, conforme veremos adiante, Kant pensa que o pensamento moral e, em particular, as considerações sobre a liberdade humana, exigem referência a esse ser noumenal. Ele continua a ser algo do qual não há experiência. O único ser que pode ser experimentado é o ser empírico, que é simplesmente todos os aspectos introspectivos, mentais, dos quais todos nós podemos ter consciência. 

 

 

Uma História da Filosofia Ocidental

De D. W. Hamlyn

Jorge Zahar Editor

Tradução de Ruy Jungmann