Karl Marx (1818-83)

Karl Marx (1818-83)

 

MARX

Nega-se algumas vezes que Karl Marx (1818-83) tenha sido um filósofo ou, de qualquer maneira, uma grande figura na filosofia. Não se pode negar, no entanto, que suas idéias foram imensamente influentes tanto política como filosoficamente. Deixá-lo de fora de qualquer história da filosofia seria absurdo. Por outro lado, muitas das obras de Marx, em especial em seu último período – trabalhos como O Capital (o primeiro volume publicado em 1876 e os demais postumamente) e o anterior Grundrisse ([Para a crítica da economia política], iniciado em 1857 como um esboço do qual foi extraído o Contribuições para uma crítica da economia política, de 1859) – tinham a economia como seu principal tema. Eruditos têm discutido se deveremos distinguir entre um anterior e posterior Marx, com certo grau de descontinuidade entre eles. A opinião corrente parece enfatizar a continuidade de seu pensamento filosófico, o qual, embora não hegeliano, foi profundamente influenciado por Hegel. Não obstante, o maior volume de conteúdo filosófico é encontrado nos primeiros trabalhos, como o A ideologia alemã, escrito em colaboração com Friedrich Engels (1820-95), e o Manuscritos econômicos e filosóficos de 1844 (Marx e Engels colaboraram ainda no Manifesto comunista, de 1848).

Marx nasceu em Trier, Alemanha. Estudou direito na Universidade de Bonn, mas logo se transferiu para Berlim, onde se dedicou à filosofia e ligou-se aos chamados “Jovens Hegelianos”, um grupo que incluiu, a intervalos, Ludwig Feuerbach (1804-72), Max Stirner (1806-56) e Engels, e era liderado na época por um conferencista, Bruno Bauer. Marx mudou-se em seguida para Colônia, onde editou a Rheinische Zeitung, publicação fechada pelas autoridades em 1843. Transferiu-se depois para Paris, onde permaneceu até 1845, fortemente envolvido com idéias socialistas, e iniciou sua colaboração e amizade com Engels. Finalmente expulso de Paris, chegou a Bruxelas, onde se tornou um dos líderes da Liga Comunista. Após uma curta estada na Alemanha, seguiu com esposa e filhos para Londres, onde permaneceu durante o resto da vida, trabalhando, como todos sabem, na sala de leitura do Museu Britânico.

Os Jovens Hegelianos com quem se ligou em Berlim formavam um grupo político radical, embora estivessem todos interessados em reinterpretar Hegel em um espírito menos místico. Feuerbach pensava que o hegelianismo era a expressão racional do cristianismo, embora interpretasse ambos de maneira inortodoxa. No A essência do cristianismo (1841) sustentou que a religião, pelo menos em sua forma cristã, diz respeito à relação do homem com sua própria natureza, ou espécie, embora esta natureza seja considerada como algo externo. Na verdade, todos os atributos de Deus são também da natureza, ou espécie, humana, e o conhecimento de Deus é realmente uma forma de conhecimento de si mesmo pelo homem. O homem projeta seus pensamentos e sentimentos sobre si mesmo em um objeto externo, que ele chama de Deus. O estudo apropriado da teologia devia ser, na verdade, a antropologia, que envolve a observação dos homens e não apenas um exercício de razão. O que Hegel considerava como a consciência de Deus (ou o Espírito Absoluto) de si mesmo, era realmente, a própria consciência de si mesmo do homem, considerada como consciência de sua natureza essencial. Isto é, na verdade, uma interpretação materialista de Hegel.

Algo disso sobrevive no Manuscrito de 1844, na idéia de uma espécie-ser ou espécie-vida, da qual se alienou o homem. Marx, porém, acabou por criticar Feuerbach, a despeito de uma primeira reação entusiástica ao que ele dissera sobre religião, sobre o fundamento de que o materialismo não era dialético – o que quer dizer que não assumiu uma apropriada visão histórica. No seu Teses sobre Feuerbach (1845), criticou-o por pensar na essência do homem como uma abstração e por não perceber que ela é, na verdade, a “totalidade das relações sociais”. Feuerbach fora, em conseqüência, obrigado a “ignorar o processo histórico”. Insistiu ainda que Feuerbach não conseguira ver o mundo sensível como “atividade sensorial humana, prática” e terminou com a famosa observação de que “os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras. O importante é mudá-lo”.

Sua reação a Max Stirner foi, de certa forma, semelhante, embora a crítica tivesse caráter muito mais vasto. Stirner objetava por completo à idéia de uma essência humana, juntamente com a idéia de que constituía a meta do homem realizar essa essência. No The Ego and Its Own (1845), expôs uma idéia bem nietzscheana de ego livre e independente, que cria a si mesmo e a seus pensamentos. O que importa para o ego, e a única coisa que importa, é aquilo de que pode apropriar-se. O indivíduo é, assim, único: “Eu não desenvolvo o homem, não como homem, mas como eu, eu desenvolvo… a mim mesmo”. Marx criticou esse egoísmo, que considerou como produto de uma sociedade burguesa, e atacou também Stirner por não reconhecer esse fato e por supor que são as idéias do ego que determinam as coisas, e não as relações históricas reais. As idéias, disse ele, são determinadas e alteradas pela vida e isso significa pelos modos da produção material e pelo intercâmbio material. Em tudo isso, ele está alegando que os Jovens Hegelianos não vão suficientemente longe em seu materialismo. O importante a ser conservado da obra de Hegel é o enfoque histórico, ou desenvolvimentista, a dialética, e nisto os Jovens Hegelianos ficaram aquém do desejado.

Sustenta Marx que há “momentos”, ou fases, no desenvolvimento da consciência de si, mas que estes não devem ser interpretados em termos do tipo de metafísica idealista proclamada por Hegel. Ainda assim, a idéia de que há essas fases é, em si, essencialmente hegeliana. Essa a razão por que Engels disse que Marx quis “pôr Hegel de cabeça para baixo”. A primeira fase é aquela em que o homem está absorvido em sua “espécie-vida”. Através de seu trabalho, a natureza é por assim dizer construída, de modo que ela se manifesta como seu trabalho e sua realidade. A segunda fase envolve alienação de si mesmo e de sua “espécie-vida”, e isso significa que o homem se aliena também dos outros homens e que “todos os outros, de idêntica maneira, se alienam da vida humana”. A “espécie-vida” do homem torna-se apenas um meio de existência física. O resultado é a propriedade privada, que constitui a expressão da alienação do homem. Através dela, objetos adquirem um valor independente do que os homens neles puseram com seu trabalho. Ocorre um processo de externalização da consciência, de modo que aquilo que o homem é projeta-se nos objetos. Daí a idéia de alienação. Através da alienação de si mesmo, dessa maneira, o homem aliena-se dos outros e torna-se um objeto para eles. Esta é a negação da primeira fase, ou momento, da consciência.

A terceira fase – uma negação da negação, em termos hegelianos – é o comunismo. Nele há a abolição da instituição da propriedade. Inicialmente, poderá haver uma simples universalização da propriedade no sentido em que se considera que as coisas pertencem a todos. Finalmente, contudo, ocorre a abolição completa da propriedade e, desse modo, há integração completa entre coisas e necessidades humanas. Dessa maneira, pensa Marx, desmoronam as barreiras entre um homem e outro. Da maneira como descrevemos isso, parece haver uma fusão entre as fases “dialéticas” da consciência e consciência de si e as fases históricas na existência humana. É de fato característico do antigo Marx que ele conserve a idéia hegeliana de história segundo o padrão que a fenomenologia revela como inerentes às idéias de fases de desenvolvimento em formas de consciência. Um dos aspectos da diferença que alguns comentadores viram entre o antigo e o novo Marx é que, neste último, a consciência e todas suas formas são vistas como aspectos de uma “superestrutura” que emerge, e só pode emergir, de uma “base” econômica. Voltaremos a essa idéia adiante, mas realmente não há contradição a este respeito entre os dois estágios do pensamento de Marx. Isto porque não é alegado pela teoria mais antiga que os fatos e relações econômicas surjam de inter-relações prévias da consciência. Em vez disso, há uma identidade entre os fatos e relações sociais e econômicas, por um lado, e as inter-relações da consciência, por outro.

Isto acontece porque Marx não interpreta a consciência da maneira como o faz Hegel. Para ele, ela já é socializada e material em natureza e falar em consciência é falar como homens tratam os objetos e uns aos outros. Além do mais, a espécie humana que Feuerbach enfatizou é considerada por Marx em termos da idéia de uma espécie-vida, que é uma forma de existência social, na qual os indivíduos se reconhecem como seres sociais e como tendo uma maneira socialmente determinada de existência. A preocupação de Marx com as fases, ou momentos, da consciência é com as formas de relação e existência social, que concebe em termos materialistas. A consciência que diz emergir como superestrutura da base econômica, de acordo com, por exemplo, o posterior O Capital, é a estrutura das instituições humanas e o sistema de crenças, valores etc., que constituem o que ele chama de uma “ideologia”. Os três momentos do pensamento mais orientado para Hegel do velho Marx correspondem aproximadamente ao “para o ser”, “no ser”, e “no e para o ser” de Hegel.

O primeiro estágio é, com efeito, uma forma de subjetivismo. Tudo o que importa para os seres humanos é sua espécie-vida. Isto consiste em trabalhar a natureza inorgânica, ou o mundo objetivo, de uma maneira que diferencia o homem dos animais, que produzem apenas o que é indispensável para suas necessidades imediatas. No trabalho e na produção o homem se duplica, produzindo uma espécie de imagem de si mesmo naquilo que criou. É através disto que “a natureza manifesta-se como seu trabalho e sua realidade”. A ênfase no trabalho e na produção é um aspecto da chamada “teoria do valor do trabalho” – a de que o valor de uma coisa é função da quantidade de trabalho que entra em sua produção, de modo que qualquer mais-valia que é acrescentada a ela no processo econômico tem que ser uma forma de exploração. Marx amplia essa teoria no O Capital como parte de uma descrição do capitalismo, embora suas origens estejam no pensamento do período anterior, e na opinião de que, na primeira fase, as coisas são na realidade o que o homem faz delas com seu trabalho. Parte da explicação da alienação, que se segue, é que as coisas vêm a ter um status independente do que os homens fizeram delas com seu trabalho. Fazer através do trabalho é o que corresponde, na teoria de Marx, aos processos ativos da consciência em tornar realidade o que é dado na obra de Hegel. Trata-se de uma versão socializada e materializada do idealismo e é importante que este aspecto do pensamento de Marx seja reconhecido. Constitui, na verdade, uma espécie de premissa de seu argumento, e por sinal duvidosa.

O fato de ser apenas a primeira fase, ou momento, não a torna menos duvidosa, uma vez que as fases subseqüentes dependem da primeira. A segunda fase, do trabalho alienado ou alienação de si mesmo, surge da externalização ou objetivação dos objetos da produção pelo homem. No O Capital, ele diz isso em termos da idéia do “fetichismo das mercadorias”. Tirou ele a idéia do fetichismo do Cult of Fetish-Gods, de Charles de Brosses, publicado em 1760, segundo o qual o fetiche é um objeto inanimado ao qual se atribuem poderes mágicos. A suposição era que esses poderes constituíam uma projeção, sobre um ídolo, das características dos seres humanos que o estabelecem. (A concepção de religião de Feuerbach aproximava-se, na verdade, em muito dessa opinião.) Na opinião de Marx, as mercadorias ganham uma correspondente vida própria e esse papel é visto par excellence no dinheiro, pelo qual o valor de uso (o valor atribuído a alguma coisa por causa do papel que ela representa em relação a seres humanos) transforma-se em valor de troca. Se este é concebido em termos de que algo do ser humano é objetivado em tais objetos, a noção de alienação torna-se clara. Algo que é realmente humano separa-se desse ser humano. Marx entende que isso ocorre da forma mais extremada na instituição da propriedade. Além do mais, acha que nessa forma de alienação os homens se alienam uns dos outros. Transformam-se em meios recíprocos porque eles, também, transformaram-se em propriedade a ser comprada e vendida por dinheiro. Fala-se com grande convicção do papel corruptor do dinheiro neste particular: é a divindade visível mas também a meretriz universal. É a “essência alienada do trabalho e do ser do homem” e domina-o enquanto ele a adora.

A fase final deve ser aquela em que há identidade entre a espécie-vida do homem, considerado como ser social, e a natureza. Nesse caso, a existência natural do homem torna-se uma existência humana e a natureza torna-se também humana. Não é fácil compreender, embora seja mais fácil de entender, mesmo que não para aceitar, a crença de Marx de que, nesse estado de coisas, surge uma comunidade autêntica, sem exploração sob qualquer forma. Neste caso, a propriedade é abolida, o que acontece também com o Estado. Marx veio a acreditar que tal coisa era inevitável porque o capitalismo possui uma incoerência inerente, e, assim, encerra as sementes de sua própria destruição. Ela não ocorrerá, contudo, sem uma revolução violenta. Em primeiro lugar, deverá instalar-se a ditadura do proletariado, mas, subseqüentemente, o Estado murchará e surgirá o verdadeiro comunismo.

Mas tudo isso faz parte do pensamento posterior de Marx, onde se nota talvez maior ênfase nas forças históricas e em um supostamente necessário desenvolvimento histórico. Isto veio a ser chamado de “materialismo dialético” e tornou-se a ortodoxia marxista. É uma teoria supostamente científica, segundo a qual o desenvolvimento ao longo de princípios marxistas é inevitável, porquanto o sistema capitalista possui contradições inerentes que terão que ser solucionadas por um sistema mais aperfeiçoado. Permanece esse tanto da idéia hegeliana de dialética. É também no contexto dessa teoria que ele estabelece a distinção entre base e superestrutura. A superestrutura de instituições jurídicas e sociais, e o sistema de crenças, etc., que constituem a ideologia, nasce de uma base que consiste de um sistema de relações econômicas e forças produtivas. É isto o que torna materialista a teoria.

Tem havido discussões entre os eruditos marxistas sobre as relações exatas entre base e superestrutura, mas isto faz parte da escolástica que o pensamento marxista gerou. À parte a linha oficial soviética sobre o marxismo, os marxistas contemporâneos tendem a se dividir entre aqueles que, como Louis Althusser (1918-84) destacam os aspectos históricos e “científicos” do materialismo dialético, e aqueles que, como Herbert Marcuse (1898-1979) e outros membros da Escola de Frankfurt, enfatizam os aspectos mais hegelianos do pensamento de Marx. Poder-se-ia denominar esses aspectos hegelianos de um tipo de idealismo materialista porque, o que frisa, é a maneira como os seres humanos constroem seu mundo através de práticas sociais. O outro aspecto do pensamento de Marx dificilmente seria isso, porquanto pressupõe, na teoria da “base”, uma versão realista das forças econômicas e produtivas.

Na verdade, contudo, há uma inevitável tensão no pensamento marxista, exatamente porque o que descrevemos como o idealismo é, de fato, materialista. Para ser isso, tem-se que presumir que as práticas materiais e sociais que determinam a consciência têm uma realidade independente da mesma, e não são criadas por ela, como sugeria o idealismo. Que de fato é assim já está implícito no A Ideologia Alemã, onde Marx diz: “Os homens são os produtores de suas concepções, idéias etc. – homens reais, ativos, na medida em que são condicionados por fenômenos definidos de suas forças produtivas e pelo intercâmbio correspondente a elas, até suas formas finais”. O Marx posterior destaca as forças produtivas etc., como a base sobre a qual se constrói a superestrutura, mas o pensamento já existe no Marx anterior. A filosofia marxista constitui uma reação ao hegelianismo no sentido em que, inicialmente pelo menos, tenta pôr Hegel em uma vestimenta materialista. Ao fazer isso, torna esse sistema de pensamento incoerente de uma maneira que não era assim anteriormente – embora o hegelianismo já contenha, poderíamos pensar, incoerências suficientes. 

 

 

Uma História da Filosofia Ocidental

De D. W. Hamlyn

Jorge Zahar Editor

Tradução de Ruy Jungmann