KIERKEGAARD

KIERKEGAARD

 

 

A segunda reação a Hegel a ser levada em conta é a que partiu de Søren Kierkegaard (1813-55), geralmente considerado como fundador do Existencialismo. Nascido em Copenhague, Kierkegaard passou nesta cidade quase toda sua vida. Estudou teologia na universidade, mas como se interessava por certos estudos literários e filosóficos, só prestou seus exames em 1840. Neste ano, noivou com Regine Olsen, mas apenas para romper o compromisso ao se convencer que o casamento, e o que ele acarretava, eram incompatíveis com sua vocação. O esforço que fez para explicar e justificar sua conduta mostra uma mistura de cômico e pomposo, mas a preocupação com esse fato permaneceu com ele durante todo o resto da vida. Era um homem profundamente religioso, excessivamente para alguns, e passou muito tempo em controvérsias com a igreja oficial dinamarquesa, que achava que ele pervertia a mensagem original de Cristo. Suas idéias só obtiveram reconhecimento muitos anos depois de sua morte.

Considerava ele as idéias de Hegel como um anátema, sobretudo porque o filósofo alemão não levava em conta, em sua opinião, a existência pessoal nem reconhecia a natureza pessoal de Deus. A relação do homem com Deus é, na verdade, o tema dominante das obras de Kierkegaard. A primeira delas, Ou/Ou, publicada em 1843, contém ostensivamente uma opção entre dois estilos de vida, que ele chama de o estético e o ético. O resultado final, porém, é a sugestão de que ambos devem ser rejeitados em favor de um terceiro, o religioso. Trata-se de uma obra curiosa, começando com um discurso por parte de “A” sobre o estilo estético de vida, que tem muito a ver como o Don Giovanni, de Mozart. Isto é seguido pelo “Diário de um Sedutor”, que pretende ser algo encontrado entre os papéis de “A”, e constitui o registro das relações entre Johannes, o sedutor, e Cordélia, o objeto de sua sedução. Descreve os métodos adotados por Johannes que, tendo nas últimas duas páginas conseguido realizar o que queria, abandona-a sem qualquer interesse ulterior, tendo, como diz, introduzido a moça em uma esfera mais alta de consciência! A Parte II consiste de duas cartas, sobre “A Validade Estética do Casamento” e “O Equilíbrio entre o Estético e o Ético na Composição da Personalidade”, e de um sermão de autoria de um padre não identificado pelo nome. As cartas são escritas por “B” como crítica a “A”, mas revelam que são, na verdade, escritas por um juiz Wilhelm, que visitava freqüentemente “A”. O juiz Wilhelm representa o estilo ético de vida contra o estético de “A”. O padre fala de religião.

Por “estético”, Kierkegaard entende o interesse pelos sentidos e pelo que é imediato, incluindo o prazer e o erotismo. “A” defende o “método de rotação”, implicando o abandono de um prazer a fim de provar um outro, mas apenas para voltar ao primeiro. O juiz Wilhelm, por outro lado, faz a apologia da obediência ao dever por livre opção e de uma vida que o tenha como objetivo. Em contraste com a temporalidade da vida de “A”, exalta o ponto de vista do eterno e é ele quem apresenta a opção do “ou/ou”. O padre, porém, expõe o pensamento de que “contra Deus, estamos sempre em erro”. O juiz Wilhelm quer a livre-opção e o domínio de si mesmo, mas estes são, na verdade, ídolos, embora daqueles que, pelo seu colapso, podem levá-lo a Deus. Outro aspecto de tudo isso é encontrado no Temor e tremor (também de 1843), ostensivamente escrito por Johannes de Silentio (outro dos pseudônimos de Kierkegaard), no qual há uma notável discussão da ordem de Deus a Abraão para que sacrifique seu filho, Isaac. O dever de Abraão com o filho contrapõe-se ao que tem com Deus, com todo o paradoxo que isso envolve. No Pureza de coração é querer uma única coisa – um dos Discursos edificantes escritos em 1846 e publicado em 1847, aparentemente uma “preparação espiritual para o ministério da confissão” – Kierkegaard considera como falha humana suprema o que chama de “irresolução”, uma forma de auto-ilusão. Querer o bem, diz ele, é querer apenas uma coisa.

O cristianismo que prega é sobremodo protestante e grande parte do que escreveu pode ser classificado como uma forma muito curiosa de teologia desse tipo. Uma das noções principais, pela qual é muito conhecido, é a da angústia (Angst), que é o chamamento do eterno no mundo dos sentidos, que é detalhada no O conceito da angústia (1844). A persistência obstinada em uma vida entregue aos sentidos forçosamente resultará em desespero, conforme descrito no “O desespero humano” (Doença para a morte). No Migalhas filosóficas, discute como Deus e o eterno podem manifestar-se no tempo e na história, mas sua principal obre filosófica é o Pós-escrito anticientífico final (1846), no qual argumenta que um sistema filosófico como o de Hegel é, na verdade, uma impossibilidade, porque não pode levar em conta a existência real. A verdade, diz, é constituída pela subjetividade, através da qual Johannes Climacus (o pseudônimo usado na ocasião), porém, não pretende defender a tese da relatividade da verdade, a despeito da similaridade dessa idéia com a alegação de Nietzsche. O importante é, sim, que tentativas de se chegar à objetividade, de acordo com o sistema de Hegel, não podem lidar com o indivíduo e sua existência. Em seu lugar, Kierkegaard recomenda o “pensamento subjetivo” e a introspecção. “Só a verdade que edifica”, diz, “é verdade para nós”. O ser humano está colhido entre o tempo e a eternidade e suas decisões e opções determinam o que é isso para ele. No fim, a opção é entre ele mesmo e Deus. A busca de qualquer verdade que porventura exista deve ser pessoal.

O quanto de tudo isso constitui filosofia autêntica é matéria de debate. Mas a antítese e a rejeição de Hegel são bem reais. A profunda, embora peculiar, religiosidade de Kierkegaard e sua conseqüente concepção do homem são fenômenos que temos que levar em conta, mesmo que alguns as achem excessivamente demais para aceitar. Seu pensamento proporciona, não obstante, um senso apropriado do religioso e, dessa maneira, oferece um claro contraste com a religião à filosofia de Hegel e ainda mais, talvez, com a de Feuerbach. No que interessa à filosofia, o que teve a maior influência foi a ênfase na opção individual, que encontrou seu eco, por exemplo, na filosofia de Jean-Paul Sartre, na qual a religião está inteiramente ausente.