Mais da metade dos trabalhadores com curso superior só conseguem vaga de nível médio

Mais da metade dos trabalhadores com curso superior só conseguem vaga de nível médio
Mais da metade dos trabalhadores com curso superior só conseguem vaga de nível médio

Cássia Almeida, Mariana Durão  - O GLOBO

Mais da metade dos trabalhadores brasileiros com diploma de nível superior que conseguiram emprego com carteira assinada em 2010, precisamente 53,5%, foram contratados para vagas de nível médio. Universidades de baixa qualidade, descompasso entre formação e o que mercado precisa, valorização de alguns empregos de nível técnico são algumas explicações para esse fenômeno. Para o diretor do Instituto de Economia da UFRJ, João Saboia, que fez o estudo com base no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, há um problema claro no mercado, se mais da metade dos formados não conseguem se inserir em vagas que exigem formação superior.

- É um desperdício muito grande de mão de obra. Há um desequilíbrio de oferta e demanda. Ouvimos sempre um discurso de falta de mão de obra, mas esses dados indicam que a falta é muito pontual e em áreas que geram pouca demanda por trabalho.

Vagas de escriturários, técnicos de nível médio, vendedores e técnicos na indústria são as que estão absorvendo os trabalhadores com diploma, segundo o estudo. Também chama a atenção o salário do recém-admitido: 76,6% deles entraram no novo emprego ganhando até três salários mínimos (R$1.620, considerando o salário mínimo vigente no ano passado, de R$540). Na média, o salário do trabalhador com diploma de curso superior que trabalha em sua área é de 7,45 mínimos (R$4.023). Para Saboia, uma explicação do baixo aproveitamento é a qualidade das universidades.

- A pessoa está pagando caro para ter o diploma de faculdades com nível insatisfatório. A formação não está dirigida para o mercado de trabalho.

Administração e direito lideram

Elisabete Marinho veio para o Rio em junho passado com um diploma em Criação e Gestão de Negócios da Moda da Universidade de Vila Velha (UVV). O sonho de trabalhar com moda acabou adiado quando percebeu que os salários na área eram muito baixos: cerca de R$900 para assistente de figurino. Hoje, ela ganha R$1.600 tentando vender lojas de um shopping em Guadalupe, subúrbio do Rio.

- Eu me sinto como quem fez um grande investimento mas não teve retorno - conta ela, que calcula ter gastado R$30 mil em sua formação.

Para o professor da PUC-Rio José Márcio Camargo, a desigualdade no sistema educacional brasileiro, que já começa no ensino fundamental, reflete-se no mercado de trabalho:

- A formação do estudante desde o primário é muito fraca. As pessoas estão sendo ocupadas de acordo com sua produtividade. É um sistema educacional extremamente desigual.

A Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, em seis regiões metropolitanas (Rio, São Paulo, Salvador, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre), mostra que, mesmo em funções de nível médio, o diplomado consegue se empregar facilmente. Enquanto a taxa média de desemprego da força de trabalho foi de 6,4% em abril, para os que têm curso superior, é menos da metade: 2,9%. O salário também é maior: R$3.710, contra R$1.540.

- É inegável que o mercado valoriza muito a escolaridade e há uma vantagem clara em concluir curso superior. Mas há alguma coisa errada quando mais da metade desses trabalhadores se empregam em funções para as quais se exige menos - alerta Saboia.

Cimar Azeredo, gerente da pesquisa do IBGE, diz que o salário dos que têm diploma universitário vem caindo, mesmo sendo bem superior ao da média dos trabalhadores. Enquanto o rendimento médio cresceu 1,8% em abril frente a igual mês de 2010, o vencimento dos formados caiu 0,9%.

- Há uma entrada grande de diplomados no mercado. São recém-formados contratados com um salário menor. De 2003 a 2010, o número de ocupados com nível superior passou de 2,6 milhões para quatro milhões - afirma Azeredo.

A partir de dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), o economista Fábio Romão, da LCA Consultores, calcula que o percentual de empregados com diploma no setor privado saltou de 8,3% em 2001 para 11,3% no ano passado.

Especialistas acreditam que esse fenômeno detectado por Saboia reflete um descompasso entre o tipo de profissional formado e o que o mercado procura. O apagão de mão de obra acontece em áreas técnicas e exatas, como engenharia e geologia, fortemente demandadas por setores como construção e óleo e gás. O Censo da Educação Superior de 2009, último divulgado pelo MEC, mostra que os cursos de administração, direito e pedagogia lideram o ranking de matrículas no país. Para Naercio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, está havendo uma polarização:

- Cresce a demanda por pessoal muito qualificado, com pós-graduação. E por profissões que exigem pouca qualificação, caso de pedreiros e domésticos. Sofre quem fica no meio.

Menezes Filho avalia que o mercado tende a se autorregular, a partir da alta dos salários em algumas carreiras. Os dados do MEC de 2009 indicam esse movimento: após duas décadas de estagnação, o número de formados em engenharia cresceu 67% entre 2004 e 2009. O número de concluintes no setor subiu de 33 mil para 55 mil, mas ainda é bem menor que em países como Coreia do Sul (80 mil ao ano).

Falta de experiência também atrapalha

Formada em enfermagem pelo Centro Universitário de Volta Redonda no ano passado, Alessandra Carvalho não conseguiu trabalho na área por falta de experiência e hoje é vendedora numa loja de roupas femininas.

- Era boa aluna e até produzia artigos científicos, mas isso não influenciou na contratação - diz.

Apesar disso, Alessandra continua apostando na qualificação e hoje cursa pós-graduação em UTI Neonatal. Para Fábio Romão, da LCA Consultores, não há outra opção.

- Somos cada vez mais expostos à concorrência internacional e vamos competir com estrangeiros. Não adianta não apostar na educação.

No cartório do 18º Ofício de Notas da Barra, seis dos 15 funcionários têm nível superior, embora essa não seja uma exigência para cargos como auxiliar de cartório e escrevente. O grupo tem formação eclética: propaganda e marketing, direito, tecnologia em rede de computadores e educação física. E salários diversos. A professora de educação física Cinthya Barreto ganha cerca de mil reais como auxiliar de cartório:

- Moro em Jacarepaguá e se trabalhasse na minha área teria de me deslocar para Zona Sul.

Formado há cinco anos, o advogado Antonio Lauro Ribeiro começou como escrevente ainda na faculdade e chegou a substituto do tabelião, onde o contracheque pode ser de até R$10 mil. O salário e a possibilidade de ascensão o mantiveram no cartório:

- Tenho um cargo de confiança e, apesar de não ser indispensável, o fato de ser formado pesou muito.

A situação é semelhante à dos escreventes (e bacharéis em direito) Bianca Dutra e Marcos do Vale, e do auxiliar financeiro Flávio Roberti: todos fizeram carreira no cartório, em vez de buscar emprego em suas áreas.