NEOPLATONISMO

NEOPLATONISMO

 Com o cepticismo chegamos realmente ao fim das escolas helenísticas, embora, conforme já tivemos oportunidade de ver, ao chegar essa doutrina ao seu ponto culminante, já existissem formas de platonismo misturadas com outras coisas, denominadas Médio Platonismo. À parte Numênio e Albino, a quem já fizemos referência, Filo propôs uma forma de platonismo judaico, cabendo a Clemente e Orígenes sugerir formas de platonismo cristão. O último desses filósofos foi discípulo de Amônio Sacas, uma figura de certa maneira misteriosa que ensinava em Alexandria, que nessa altura se tornara o ponto focal da filosofia grega. Amônio nada escreveu, mas foi mestre não só de Orígenes mas também de Plotino, o fundador da denominada Escola Neoplatônica. Plotino (c. 204-269 d.C.) nasceu no Egito e estudou filosofia em Alexandria, mas seguiu posteriormente para Roma, onde elaborou seu sistema filosófico. Seu principal discípulo, Porfírio (233-304 d.C.), retratou-o em uma biografia e ele mesmo introduziu alguns refinamentos no sistema neoplatônico. Coube-lhe também compilar as obras de Plotino em seis grupos de nove livros, trabalhos estes que vieram a ser conhecidos como Enéadas, da palavra grega ennea, que significa nove.

A Escola Neoplatônica tornou-se a dominante no período e chegou a ser mesmo patrocinada pelo imperador Juliano (o “Apóstata”) como uma rival do cristianismo. Após a morte de Plotino, a escola se cindiu, parte dela continuando na Síria sob Jâmblico e a outra parte em Atenas sob orientação de Proclo e, mais tarde, de Damáscio. Em 529, o imperador Justiniano, no interesse do cristianismo, proibiu o ensino da filosofia em todo o Império, com o conseqüente fechamento da escola de Atenas (é assunto controvertido se o ensino da filosofia cessou também em outros lugares). Damáscio e outros tentaram continuar a exercer sua profissão na Pérsia, mas julgaram a vida intolerável nesse país. Ao regressarem ao Império não foram, porém, castigados por suas crenças, embora se mantivesse a proibição ao ensino. Dedicaram-se, em vista disso, a escrever comentários, especialmente das obras de Aristóteles, embora, no contexto das mesmas, a discussão filosófica prosseguisse, particularmente entre Simplício, o comentarista mais conhecido do período sobre Aristóteles, e o neoplatônico cristão João Filopono. A tradição de comentários filosóficos continuou no período bizantino. Transmitida aos árabes, constituiu o meio da redescoberta final de Aristóteles no século XIII, após séculos de ignorância no Ocidente.

O sistema plotiniano não se baseava realmente em discussões. Segundo se sabe, Plotino não tinha gosto por debates públicos, deixando isto a seus discípulos. A sexta Enéada contém de fato uma crítica aos sistemas aristotélico e estóico de categorias e uma tentativa de estabelecer “os maiores tipos” platônicos, como a autêntica doutrina das categorias, e adaptar as demais opiniões ao contexto das mesmas, como aplicáveis ao mundo sensível, mas não ao mundo inteligível. Os detalhes dessas críticas não são encorajadores para uma crença em Plotino como filósofo que se baseie em argumentos. Na verdade, elas são sobremodo confusas. O forte de Plotino residiu em fornecer uma descrição metafísica da realidade de um tipo que devia alguma coisa a Platão, especialmente na distinção implícita no que já dissemos – a existente entre os mundos sensível e inteligível.

A realidade é de fato um continuum que se expande para fora, a partir de um centro que constitui a fonte de poder e determina o que dele se deriva. Este processo não deve ser considerado temporal. Representa uma dependência metafísica. O grau mais baixo de poder e realidade – na circunferência, por assim dizer – é encontrado na matéria, que não tem natureza positiva em si, sendo definível apenas pela negação. O indivíduo pode, digamos, reverter este processo mediante identificação com a fonte de poder, que Plotino denominava de Uno. Este fato traz a lume o aspecto místico da filosofia de Plotino, enfatizado ainda mais por Jâmblico, ao passo que Proclo salientava os aspectos mais intelectuais. O Uno é o primeiro de três graus da realidade. Plotino dá a esses graus o nome de hypostases (substâncias, ou natureza). Eles são o Uno, o Intelecto (nous) e a Alma (psiche). O Intelecto deriva do Uno por emanação (o processo expansivo já referido) e torna-se plural por diferenciação em formas e nas mentes individuais. A Alma deriva do Intelecto e torna-se plural ao existir em todas as coisas. É, assim, um mundo-alma que se manifesta não só em coisas obviamente vivas, mas em tudo mais também, de modo que Plotino aceita e prega um animismo geral. Este atua sobre a matéria, produzindo a natureza, que é a província da prática, não da contemplação, esta de responsabilidade do Intelecto. A prática, diz Plotino, é uma fraca cópia da contemplação.

O Uno não é uma pessoa, embora, algumas vezes, seja chamado de Deus. Não é cognoscível, mas o objetivo do místico, conforme vimos, consiste em identificar-se com ele. O mundo do intelecto é o próprio mundo inteligível das Formas Platônicas, com as quais nosso próprio intelecto está, de alguma maneira, relacionado. É o mundo da eternidade. O mundo-alma organiza o mundo sensível, diz Plotino, da mesma forma como um dançarino o faz com a dança, não por planejamento consciente. É responsável pelo tempo, e se não houvesse alma não haveria tempo, uma vez que a alma é responsável pela mudança e o movimento, sem os quais, acredita Plotino – como na verdade acreditavam Platão e a maioria dos gregos – não haveria tempo (uma idéia que confunde o que é necessário para notar a passagem do tempo com uma característica do próprio tempo). A alma une-se com a matéria por sua própria vontade, a despeito do fato de que a segunda é, em um sentido, a origem do mal. Assim acontece porque ele é a ausência de toda forma e ordem, e o mal é, assim, identificado com a ausência do bem. O conceito de matéria assim usado é, naturalmente, aristotélico, não um conceito platônico, mas isto é típico de Plotino. Ele tende a incorporar as idéias aristotélicas ao seu próprio sistema.

Em um espaço curto, é talvez difícil achar muito sentido no que Plotino diz. Ele apresenta uma descrição de coisas que derivam de uma fonte central. Embora seja de inspiração platônica, distancia-se muito disto em espírito. Isto acontece porque, atrás de Plotino, há o médio platonismo e um período de religiões de mistérios, quase filosóficas, nos quais movimentos como o gnosticismo e o hermetismo foram preponderantes. Não obstante, Plotino conhecia bem seus predecessores estóicos e aristotélicos. Por isso mesmo, embora haja misticismo no neoplatonismo há também filosofia autêntica, embora não de nível muito alto. O sistema é essencialmente não-cristão (não há, por exemplo, lugar nele para a criação), mas os cristãos podiam adaptá-lo e o neoplatonismo cristão não só era possível, como de fato realmente surgiu. O essencial em Plotino é que a realidade deve sua existência e natureza a uma única fonte primária e primitiva, da qual deriva um mundo de Formas inteligíveis com as quais podemos estabelecer certo contato através de nosso próprio intelecto e da qual procedem vida, tempo e mundo sensível. Tudo isto constitui a forma que é imposta à matéria informe e lhe dá seus fundamentos racionais e a qualidade do bem. Temos corpos feitos de matéria, mas também alma e intelecto e um caminho desta maneira, em princípio, se abre para uma identificação com a fonte do ser na experiência mística – algo que, de acordo com Porfírio, Plotino conseguiu realizar quatro vezes (Porfírio disse que a conseguiu uma vez).

O próprio Porfírio pouco teve a contribuir para o sistema de pensamento, embora, em uma observação sobre o status da espécie, ao discutir o Categorias de Aristóteles, formulasse o problema dos universais, que tanto preocupou a Idade Média. Proclo (410-485) foi uma figura de maior peso. Introduziu, ou de qualquer maneira tornou mais importante na escola, o sistema de tríades subordinadas de hypostases dentro da grande tríade plotiniana, com o objetivo de preencher claros que pensou existirem na mesma. Ele achava também que a diferenciação e transformação em uma pluralidade de coisas, que encontramos no sistema de Plotino no nível de intelecto e alma, devia existir também nos níveis mais altos. Em vista disso, propôs uma doutrina segundo a qual o Uno é diferenciado e transformado em henads (monads, poderíamos dizer, para usar o termo preferido por Leibniz muito depois), responsáveis por uma hierarquia de entidades subordinadas que se estendiam para baixo na direção dos níveis inferiores da realidade. Isto obviamente complica imensamente o sistema e rouba o neoplatonismo do caráter monístico que tivera com Plotino. Outra maneira de dizer isto é que Proclo foi o Leibniz do Spinoza de Plotino.

Conforme vimos, a filosofia, em uma forma ou outra, passou para outros períodos, embora, devido às circunstâncias, particularmente de natureza política e religiosa do Império Romano, ela se envolvesse cada vez mais com outras coisas. Em Bizâncio, pouco aconteceu, salvo no nível de comentários. No Império do Ocidente, o cristianismo tornou-se a norma, e considerações teológicas e filosóficas se emaranharam. Mas, na verdade, isto já acontecera muito antes de Justiniano fechar as escolas filosóficas e, para estudar a primeira das grandes figuras da filosofia na Idade Média, santo Agostinho, temos que retroagir a um tempo anterior a Proclo, ou pelo menos a seu tempo, nos séculos IV e V d.C.

 

Uma História da Filosofia Ocidental

De D. W. Hamlyn

Jorge Zahar Editor

Tradução de Ruy Jungmann