Sartre

Sartre

  

Fora da Alemanha, o filósofo que demonstrou a mais clara e imediata influência de Heidegger foi Jean-Paul Sartre (1905-80). A educação filosófica de Sartre ocorreu na tradição de Bergson, mas logo depois ele caiu sob a influência de Husserl. Suas três primeiras obras filosóficas, duas sobre a imaginação e uma sobre as emoções, seguem o estilo e a tradição fenomenológicos. Em 1943, publicou L’Être et le néant (O ser e o nada), que é em grande parte uma tradução, para termos franceses, das idéias heideggerianas. A idéia de que a consciência é um nada e a distinção fundamental entre o pour soi e o en soi são idéias tiradas de Heidegger, embora as categorias “o ser-para-si” e “o ser-em-si” contenham também ecos hegelianos. O “ser-para-si” (pour soi), que é aquilo em que consiste a consciência, é na verdade o Dasein de Heidegger. A consciência envolve a consciência de si mesma. É um nada no sentido de não ter essência. Os seres humanos, como seres conscientes, podem fazer a si mesmos por sua própria livre escolha, e a existência, bem como a inevitabilidade do livre-arbítrio, constituem elementos fundamentais da filosofia de Sartre. Qualquer tentativa de evitá-las implica o que ele denomina de “má fé”.

A ênfase na liberdade absoluta e na sua inevitabilidade é encontrada também no primeiro romance “filosófico” de Sartre, A náusea. Nele, o herói, Roquentin, é obrigado a reconhecer a contingência absoluta das coisas (do en soi) em contraste com sua opção inteiramente livre. As coisas têm o que Sartre chama de “facticidade” e disto conclui que sua existência é, em certo sentido, absurda. O absurdo do mundo é simplesmente uma função de sua contingência bruta e isto produz a náusea, o que Heidegger chamou de “o tédio”. É necessário que o indivíduo reconheça sua própria liberdade diante disso. O indivíduo tem, em certo sentido, sustenta Sartre, de escolher seu próprio mundo.

Um problema a este respeito é que cada indivíduo tem que fazer a mesma coisa. A opção é individualística, mesmo que – com ele diz em sua curta excursão pela ética, O existencialismo é um humanismo – ele escolha por todos os homens. Isto produz o inevitável efeito de que uma manifestação do pour soi entrará em conflito com outra, de modo que, como é dito na peça Huis dos (Entre quatro paredes), “o inferno são os outros”. O ser-para-si entra em conflito com o ser-para-outros. Como resultado, a visão de Sartre das relações pessoais é sombria e de conflito inevitável. Eu tenho inevitavelmente que tornar o outro o que é para mim um exemplo do en soi, uma coisa. O problema é que o outro tem que fazer a mesma coisa comigo. (Este pensamento retroage à versão de Hegel da relação senhor-escravo, e o emprego por Sartre do exemplo de alguém olhando por um buraco de fechadura, apenas para descobrir que alguém o vigia, constitui um pálido eco do uso por Hegel da relação senhor-escravo para demonstrar a relação entre consciência de si mesmo e consciência dos outros.) As conseqüências disso são expostas em alguns dos romances. Se ou não ele cometeu uma fraude ao tentar dar confirmação à sua posição filosófica através de representações dramáticas das peças e romances é uma vasta questão. Certamente a visão que Sartre tem dos seres humanos e de suas relações não é a mesma de todo mundo.

A Parte 4 de O ser e o nada contém uma vívida descrição dos perigos de se permitir que o pour soi seja dominado pelo en soi, o risco de deixar que a própria liberdade seja usurpada por um mundo de coisas supostamente estável. O mundo de alguém que faz isso, diz ele, é viscoso, ou pegajoso e, na verdade, instável e falso. Sartre escreve a este respeito em termos do que chama de psicanálise existencial. É contra a psicanálise comum por dois motivos: em primeiro lugar, porque a postulação freudiana de um inconsciente é a postulação de algo incoerente, de uma consciência inconsciente (crítica esta que é válida apenas se são aceitos os termos de referência de Sartre – que o indivíduo é uma consciência); em segundo, porque tenta pôr em termos psicológicos, incluindo a sexualidade, o que é realmente matéria metafísica, ou ontológica – a solidão necessária do indivíduo em um mundo de fatos brutos, sem um Deus, em relação ao qual ele tem que exercer o livre-arbítrio.

O senso comum pode continuamente sugerir a questão se a situação é tão má assim e essa tem sido a reação geral dos filósofos de fala inglesa a Sartre. O que talvez tenha merecido maior reconhecimento foi o brilhantismo da versão sartriana da “má fé”. Talvez ela seja uma versão da “inautenticidade” de Heidegger, mas é descrita em termos mais reconhecíveis, com referência a exemplos, sem dúvida tirados do mundo de freqüentadores de bares de Sartre, do comportamento de pessoas, como o garçom, ou a moça que é objeto de uma possível “cantada”. A má fé é uma forma de enganar-se a si mesmo e a ênfase de Sartre nela levou a outras tentativas de lidar com os problemas inerentes ao fenômeno. De que maneira pode alguém realmente enganar a si mesmo sem estar consciente de que é isto o que está acontecendo, caso em que o esforço parece condenado ao fracasso? Ou está mesmo? A rejeição por Sartre da noção de um inconsciente impede que ele aproveite a saída fácil, fazendo referência a um ser dividido. Ainda assim, o engano de si mesmo parece implicar alguma forma de dissociação de si mesmo. Talvez não queiramos aceitar a análise que Sartre fez do fenômeno ou de sua possibilidade, mas a descrição do mesmo adquiriu algo do status de clássico na literatura.

No seu pensamento dos últimos tempos, Sartre, de forma muito surpreendente, voltou-se para o marxismo. O Crítica da razão dialética (1960), do qual foi publicado apenas o primeiro volume, foi prefaciado pelo Questão de método (1957). Segundo esta última obra, o marxismo é a filosofia dominante do século XX, mas o existencialismo pode mostrar que os conceitos do marxismo tornaram-se relevantes pela sua “interiorização”, desta maneira derivando-os da natureza da opção individual. O Crítica abandona com efeito essa tese, preferindo considerar a “práxis” em termos inteiramente gerais e históricos, e não derivando-a de ação humana individual. Além do mais, nesse momento, ele pensa que a ação coletiva transcende as dificuldades das relações pessoais, que seus primeiros escritos descreveram tão dramaticamente. O fato é que o existencialismo é inteiramente incompatível com o marxismo, a despeito da semelhança que se possa pensar existir entre a noção de má fé e a noção de alienação, da forma derivada de Hegel. Parece que a convicção e as influências políticas adicionaram incoerência à filosofia. Mas a mesma acusação bem que pode ser feita a muito da filosofia francesa recente.

Uma História da Filosofia Ocidental

De D. W. Hamlyn

Jorge Zahar Editor

Tradução de Ruy Jungmann