A RESPEITO DO ILUMINISMO

15/05/2011 00:59

 

 

 A RESPEITO DO ILUMINISMO

 

    O Iluminismo foi uma corrente filosófica desenvolvida na Europa no transcorrer dos séculos XVII ao XVIII, que pregava a valorização do ser humano e o uso da razão para o estudo da natureza e da sociedade. Floresceu especificamente na França, Grã-Bretanha e Alemanha e, posteriormente, influenciou diversos países, como Portugal, na figura do Marques de Pombal e a independência das treze colônias controladas pela metrópole britânica que mais tarde formariam os Estados Unidos da América. Em especial na França ocorreu a contestação de conceitos até então inabaláveis como o Absolutismo de direito divino1 e os privilégios da nobreza (VICENTE, 1995).

    Para os iluministas, o uso crítico da razão é o caminho para combater os dogmas metafísicos, as superstições religiosas, os preconceitos morais, os desmandos políticos e as relações desumanas, assim como a falta da liberdade de credo, de opinião e política. O movimento iluminista defende a difusão do conhecimento cientifico, pois o ser humano da época confiava cegamente nos paradigmas pré-estabelecidos como verdade. Essas “verdades”, impostas pela Igreja Católica, por muito tempo atrasaram o desenvolvimento científico, impedindo, por exemplo, o estudo em cadáveres (FORTES, 1985).

“Cada século,” dirá Diderot, “tem um espírito que o caracteriza: o espírito do nosso parece ser o da liberdade.” Ora, liberdade significa aqui em primeiro lugar, liberdade frente à tradição religiosa. É com a condição de se conceber

    Como livre no exercício de sua razão, como senhor de suas opiniões e como fonte de sua própria verdade, que o universo inteiro poderá liberar-se, para o homem, como um eventual campo de exercício para sua capacidade racional de explicação. Para a tradição religiosa e teológica uma tal pretensão seria a rigor descabida. A resposta aos enigmas que circundam o homem o encontra na própria palavra divina revelada: nas Sagradas Escrituras. Certo, é sem dúvida que ele se utilize de seu conhecimento e de sua inteligência para melhor compreender certas passagens da Escritura, pois nem sempre as tais respostas são suficientemente claras. Mas nunca será sua razão a faculdade a dar última palavra: ela é simples servidora da Fé, de um conjunto de preceitos dogmaticamente fixados diante dos quais deve cessar toda curiosidade intelectual. O âmbito da atuação da razão humana será, nestas condições, necessariamente restrito e secundário: nem poderá dispensar a Revelação e nem, muito menos, pretender em caso de conflito, prevalecer sobre ela. (SALINAS, 1985, p.16)

 

    O iluminismo buscava a verdade fora da religião e do racionalismo. De certa forma, levou à prática do uso crítico da razão para destruir todo e qualquer tipo de heteronomia [do grego hétero (outro) e nómos (lei)]. Prega o progresso por meio da racionalidade que tem por base tanto o empirismo de Locke, para quem as ideias são reduzidas a experiência, quanto na física newtoniana. (DURANT, 19--, p. 23).

    No contexto da época, à teologia competia estudar o ser humano. O iluminismo inverteu essa noção e colocou a antropologia como fundamentação para a pluralidade dos saberes, pois havia um objetivo comum que era estudar positivamente a natureza. A antropologia iluminista possui base na inteligibilidade racional humana (ZATTI, 2007).

    Quanto à autonomia, os iluministas relacionavam a humanidade, a civilização e o progresso com premissas de caráter racional e universal da natureza humana. Por humanidade, o iluminismo a partir dos critérios de imanência versus transcendência do ser humano, entendia a valorização da realidade terrena em si mesma e a importância da ciência segundo princípios empíricos.

    Para o iluminismo, o ser humano, detentor dos resultados das ciências empíricas, é realmente autônomo. Seguindo essa mesma linha, o ser humano alcança a autonomia quando busca a própria preservação, a satisfação para seus desejos e também a minimização de seus sofrimentos em vista da felicidade (ZATTI, 2007).

    Essas inferências levam em consideração a natureza física do ser humano como membro da natureza. Portanto, a autonomia, do ponto de vista do iluminista, possui suas raízes na antropologia, no pressuposto de imanência, na historicidade, no materialismo das ações humanas, que, subsidiados pela força quase sem restrições das ciências experimentais, derruba mitos, superstições, coações, a falta da liberdade, as imoralidades e edifica o progresso humano.

    Seus principais representantes foram Voltaire, que pertencia ao grupo dos enciclopedistas, e na ocasião em que esteve na Inglaterra publicou as Cartas Filosóficas; era um admirador das liberdades inglesas, crítico do absolutismo e da intolerância; Diderot, responsável por organizar e publicar a Enciclopédia2, a grande obra em trinta e cinco volumes, que tinha por objetivo difundir o conhecimento e as novas ideias; Spinoza, criador de um sistema matemático por meio da qual o universo era representado pela dedução de axiomas aceitos; Hobbes, que se dedicou à filosofia política e publicou a obra o Leviatã e também o racionalismo rigorosamente ateísta e materialista. Iluminismo contribuiu para que a Filosofia justamente investigasse a sua própria ferramenta de trabalho, ou seja, a razão. O que se buscava era a resposta sobre até que ponto a Filosofia poderia atingir o verdadeiro conhecimento. Como se origina o conhecimento? Essa pergunta obteve respostas a partir do grupo dos iluministas britânicos, como os empiristas Francis Bacon, David Hume e John Locke. Aristóteles afirmou que “nada existe na mente a não ser o que existiu primeiro nos sentidos” (Durant, 19--, p. 17), ou seja, o ser humano adquire o conhecimento por meio de suas experiências sensíveis, a partir do contato com o que é material.

    A corrente empirista foi refutada pelo Bispo George Berkeley que, contra o materialismo, defendeu a ideia de que a matéria é uma condição da mente e aquilo que realmente se conhece é mente. Porém o maior ataque partiu de David Hume que, em sua obra Tratado sobre a Natureza Humana, de 1739, argumentava que dos objetos só temos acesso às sensações e não podemos conhecê-los de fato. A respeito da mente, ela é reduzida a um órgão que tem as ideias, as percepções, as lembranças, os sentimentos e não se pode observar a alma por meio de processo de pensamentos (DURANT, 19--).

    Com a ciência, Hume que desmontou o conceito de lei. Ele atacou o princípio de causa e efeito alegando que as sequências observadas (o fato de o sol ter nascido hoje não garante que nascerá amanhã) não garantem que os mesmos resultados continuem aparecendo. As leis são somente hábitos e não há necessidade no hábito. Só há necessidade na matemática, pois suas fórmulas são tautológicas, tanto que os predicados nada acrescentam aos sujeitos.

A ciência foi colocada sob a tutela da matemática:

    Quando corrermos bibliotecas convencidos desses princípios, que destruição teremos de fazer! Se por exemplo tomarmos em nossas mãos qualquer volume de metafísica escolar, perguntemos: Contem qualquer raciocínio referente a quantidade ou número? Não. Contem qualquer raciocínio experimental tratando da realidade e da existência? Não. Jogue-o nas chamas, pois não pode combater nada a não ser sofismas e quimeras (DURANT, 19--, p. 21)

    Para Durant (19--), essas palavras chegaram em 1755 até Kant, sendo que a obra de Hume causou o despertar de seu sono dogmático. Em seu acordar Kant percebeu que a religião e a ciência estavam prestes a cair na mão dos céticos.

 

JOSENEY PINA

TRECHO RETIRADO DA OBRA "MORAL E AUTONOMIA EM KANT" - Monografia apresentada como exigência final para obtenção do título de Licenciatura Plena em Filosofia, à Banca Examinadora da Universidade Católica Dom Bosco ao curso de filosofia da UCDB, sob orientação do Prof. Dr°. Marcelo Alves Nunes.

 

 

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1 O absolutismo na França se iniciou com a dinastia capetíngia que a partir do século X resultou na formação do estado nacional francês. Após a Guerra dos 100 anos (1337-1453) o trono passou a dinastia do Valois, que concentrou a política e fortaleceu a coroa e desbancou a nobreza. Mas guerras de político-religiosas durante o século XVI atrasaram o processo, na disputa pelo poder se opunham a monarquia, pela família Guise e huguenotes calvinistas ao lado dos Bourbons. O conflito foi vencido pelos Bourbons que assumiram o poder com Henrique IV, que promoveu a liberdade de culto aos protestantes na França. Em 1610, com o assassinato de Henrique IV, assume Luís XIII, e concede ao cardeal Richelieu o cargo de primeiro ministro, que praticou uma política que buscava a supremacia do rei e do país. Essa maneira de governar retirou da liderança autoridades locais sob a força das armas. Externamente atuou em articulações que visavam enfraquecer a dinastia dos Habsburgo, o que lhe garantiu a anexação de ricos territórios do Sacro Império Romano Germânico. Portanto, devido influência de Richelieu foi conforme a figura de Luís XIII, embasada também na teoria do direito divino postava o rei como o representante de Deus na Terra, conferindo o caráter do poder real como sagrado e só seria limitado por leis cristãs e pelas tradições do povo francês que era chamada de leis fundamenteis do reino. Com a morte de Luís XIII, o trono foi assumido pelo cardeal Mazarino, que abafou revoltas provocadas por parte de nobres que não concordavam com o absolutismo. A partir de então esses mesmo nobres passaram a obedecer ao regime, como servos e recebendo favores. Com a morte de Mazarino, ocorreu a ascensão de Luís XIV, que concentrou em suas mãos a direção interna e externa do país. O que lhe garantiu a alcunha de Rei Sol, bem representada em sua famosa frase; “o Estado sou eu”. Porem essa concentração de poder levou a conflitos que trouxeram sérios problemas econômicos, que aumentaram a aversão ao regime. O sucessor do Rei Sol foi Luís XV, seu reinado foi marcado pelos problemas econômicos, por guerras como a Guerra dos Sete Anos, contra a Inglaterra, em que perdeu parte de suas colônias na América do Norte. Com Luís XV o absolutismo viu crescer sua oposição, intensificadas por dificuldades internas. Esse contexto fomentou o processo que culminou na Revolução Francesa, consequentemente a queda do regime e a instauração de uma nova ordem na França. (VICENTE, 1995, p 49-50).

 

2 A Enciclopédia foi publicada entre 1751 e 1752 sendo que em duas ocasiões o governo da França proibiu sua divulgação.

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

 

DURANT, Will. A filosofia de Emanuel Kant a seu alcance. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, [19--].

HANLYN, D. W. Uma história da filosofia universal. Trad. Ruy Jungmann. Jorge Zahar Editora. Disponível - https://www.pfilosofia.xpg.com.br/03_filosofia/03_05_hfo/hfo.htm (acessado em: 15/7/2009).

ZATTI, Vicente. Autonomia e educação em Kant e Paulo Freire. Disponível - https://www.pucrs.br/edipucrs/online/autonomia/autonomia/autonomia.html (acessado em: 22/09/2009).

JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia, 2ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.

KANT, Immanuel. Crítica da razão prática; tradução baseada na edição original de 1788, com introdução e notas de Valério Rohdem. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

_______. Crítica da razão pura. Trad. Alex Martins. São Paulo: Martim Claret, 2004.

_______. A resposta a pergunta: o que é o iluminismo?. Disponível - https://rgirola.sites.uol.com.br/Kant.htm (acessado em 05/10/2009).

_______. Prologômenos para toda a metafísica futura que se apresente como ciência. Disponível –https://www.4shared.com/file/57468921/4738445d/KANT_Prolegomenos_a_toda_metafs.HTML (acessado em 15/11/2009).

LEITE, Flamarion Tavares. 10 lições sobre Kant. 3ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

LOGOS: Enciclopédia luso brasileira de filosofia. São Paulo: Editora Verbo, 1989.

PADOVANI, Umberto e CASTAGNOLA, Luís. História da filosofia. 11ª ed. São Paulo, SP: Edições Melhoramentos, 1977.

ROHDEN, Valério. Interesse da razão e liberdade. São Paulo: Ática, 1981.

SALDANHA, Nelson. Kant e o criticismo; no bicentenário da crítica da razão pura. Massangana, 1982.

SALGADO, Joaquim Carlos. A idéia de justiça em Kant; seu fundamento na liberdade e na igualdade. Belo Horizonte: UFMG, 1986.

VAZQUEZ, Adolfo Sanches. Ética. Trad. João Dell’Anna. 19ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.

VAZ, Henrique Claudio de Lima. Escritos de filosofia IV: introdução a ética filosófica I. 3ª ed. São Paulo: Loyola, 2006.

ZINGANO, Marco Antonio. Razão e história em Kant. 1ª ed. Editora Brasiliense, 1989.

VICENTINO, Cláudio. História integrada: o mundo da idade moderna: Brasil geral: 6° série: livro do professor. São Paulo, Scipione, 1995.

FORTES, Luis Roberto Salinas. O iluminismo e os reis filósofos. 3ª ed. Editora Brasiliense, 1985.