Criação

 Criação

 

O homem se pergunta pela origem das coisas: de cada coisa e de todas as coisas em seu conjunto, ou seja, do universo. A segunda questão, embora aparentemente formulada dentro da mesma lógica que a primeira, tem uma importância particular: cada elo de uma corrente pode explicar-se pelo anterior, mas tomando toda a corrente, como explicar seu primeiro elo?

Criação é o nome que se dá à formação do universo e dos seres vivos, especialmente o homem. A necessidade de buscar explicações para sua própria origem levou o homem à elaboração de mitos, processo pelo qual se constituíram as religiões. Num segundo momento, de racionalização, formularam-se conceitos e propostas de sentido filosófico. Nesse plano, as respostas podem reduzir-se, esquematicamente, a três possibilidades: a auto-suficiência da matéria eterna, a emanação a partir da substância divina e a criação.

Os mitos são soluções imaginativas que os povos elaboram a propósito dos problemas emocionais e cognoscitivos que lhes propõe sua existência, sua história e os fenômenos da natureza. A profundidade antropológica dos problemas permite que tais explicações, embora às vezes de aparência ingênua, encontrem ressonância em homens das mais diversas culturas. Ao mesmo tempo, a confluência de mistério, comprometimento emocional e insatisfação humana desloca o mito para o campo do sagrado.

Um dos problemas fundamentais do homem, ao tratar de orientar-se no mundo de que faz parte, é a origem desse mundo. Entende-se por cosmogonia a teoria da formação do universo, muitas vezes atribuída a seres superiores ou a forças cegas e misteriosas, aos quais o homem fica subordinado, cujos desígnios podem ser eventualmente alterados mediante preces e exorcismos. Não há povo ou cultura que não tenha elaborado sua própria mitologia sobre a origem do mundo, às vezes por adaptação ou sincretismo de mitologias preexistentes.

Em certo sentido, os mitos cosmogônicos são semelhantes ao pensamento filosófico sobre a origem das coisas. Mas, diferentemente da filosofia, baseiam-se num sistema de símbolos e, tendo em vista que constituem referência significativa para todo o modelo cultural de uma sociedade, incluem elementos racionais e irracionais. Os mesmos mitos podem ser tidos como origem da religião e da filosofia, mas segundo uma ordem e abrangência distintas.

Mitos sobre a origem do mundo. Ao estabelecer uma tipologia dos mitos cosmogônicos é conveniente resumir os mitos próprios de diferentes culturas, para melhor compreender o que eles têm em comum.

Mesopotâmia. Os povos mesopotâmicos, em especial sumérios e babilônios, desenvolveram uma cosmogonia completa que se preservou em textos como o Poema de Gilgamesh e o Enuma elish, com mitos consolidados durante o terceiro e o segundo milênios antes da era cristã. Entre esses povos representava-se o início da criação como um processo de procriação: os deuses teriam sido os elementos naturais que formaram o universo, muitas vezes por meio de lutas contra forças desagregadoras. Os babilônios, numa epopéia sobre a criação, glorificavam a vitória de Marduk, o único deus bastante forte para derrotar o dragão Tiamat, personificação do caos e das águas do mar.

 

Em linhas gerais, a mitologia mesopotâmica apresentava como princípio do mundo Abzu e Tiamat, elementos masculino e feminino das águas, origens do universo celeste e terrestre. Tiamat produziu o céu, de que nasceu Ea (o conhecimento mágico), que engendrou Marduk. Este derrotou os outros deuses e dividiu o corpo de Tiamat, separando assim o céu da Terra e, com o sangue de um monstro derrotado, produziu o primeiro homem.

A Bíblia. Base religiosa de judeus e cristãos, em diferentes cânones, os textos bíblicos, segundo um consenso da atualidade, devem ser interpretados predominantemente como alegorias, que variam conforme os autores que os escreveram.

O Gênesis, primeiro livro do Antigo Testamento, descreve a origem do mundo e do homem com linguagem e imagens semelhantes às dos relatos mesopotâmicos. O primeiro capítulo diz: "No princípio, Deus criou o céu e a terra. Ora, a terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, um vento de Deus pairava sobre as águas. Deus disse: 'Haja luz' e houve luz. Deus viu que a luz era boa, e Deus separou a luz e as trevas. Deus chamou à luz 'dia' e às trevas 'noite'. Houve uma tarde e uma manhã: primeiro dia. (...) Deus disse: 'Fervilhem as águas um fervilhar de seres vivos e que as aves voem acima da terra, diante do firmamento do céu' e assim se fez. (...) Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou."

O segundo capítulo do Gênesis traz um relato mais antigo sobre a criação: "Então Iavé Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente."

América. Os onondagas, povo que habitava a região que posteriormente seria o estado de Nova York, nos Estados Unidos, elaboraram uma cosmogonia mítica inteiramente particular. Em essência, o relato pode assim se resumir: o grande cacique das pradarias celestiais cansou-se de sua mulher e lançou-a às infinitas águas turvas. Ela pediu ajuda aos animais marinhos para que retirassem o barro do fundo do mar. O sol secou o barro e pôde instalar-se nele a Mulher celestial, ou a grande mãe Terra.

Entre os povos americanos foram provavelmente os maias que desenvolveram um mito mais coerente sobre a origem do mundo. Sua explicação remonta ao princípio último e concebe a criação em 13 etapas. Na primeira, Hunab Ku, o deus uno, fez-se a si mesmo e criou o céu e a terra. Na décima terceira, tomou terra e água, misturou-os e desse modo foi moldado o primeiro homem. Mesmo assim, os maias consideravam que vários mundos se haviam sucedido e que cada um deles se acabou em conseqüência de um dilúvio. O Popol Vuh, dos povos maias, constitui uma extraordinária narrativa cosmogônica e se refere à criação do primeiro homem a partir do milho.

Em outras religiões ameríndias, as crenças e mitos cósmicos também se relacionam com os elementos da natureza. Para os incas, o lugar da criação do homem pelo deus Huiracochá situava-se perto do lago Titicaca, nas proximidades de Tiahuanaco. Os astecas, segundo o Código matritense, situavam em Teotihuacan a catástrofe cósmica que pôs fim à idade anterior. Nesse lugar, os deuses se reuniram para deliberar quem se lançaria na fogueira para transformar-se em Sol, o que foi conseguido pelo humilde Nanahuatzin.

 

No Brasil, a cosmogonia dos índios se reporta a um criador do céu, da Terra e dos animais (o Monã dos tupinambás) e a um criador do mar, Amã Atupane, talvez Tupã, entidade mítica que os jesuítas consideraram a expressão mais adequada da idéia de Deus surgida nos domínios da catequese.

Modelos de mitos cosmogônicos. Apesar de sua diversidade, as concepções míticas da origem do mundo recorrem, de modo geral, a dois modelos básicos.

 

Criação por um ser supremo. Os estudiosos do século XIX pensavam que o tema da criação por um ser supremo era inerente a um estágio cultural avançado. Pesquisas posteriores, no entanto, observaram essa crença entre povos primitivos da África, ilhas do norte do Japão, América, Austrália central e em muitas outras partes do mundo.

A natureza desse ser supremo, que freqüentemente é acompanhado de algum outro, hierarquicamente inferior, difere de cultura para cultura. A criação se realiza mediante seu pensamento, sua palavra - como na Bíblia e no Popol Vuh - e, às vezes, com certo sentido de emanação, com seu calor e suor. Todos esses mitos, porém, possuem características comuns: (1) o ser supremo é onisciente e todo-poderoso; (2) o ato de criação é consciente, deliberado, planejado e livre, já que a divindade não fica vinculada à criação; (3) a divindade desaparece até que se produza algum acontecimento catastrófico; e (4) a criação é um paraíso que se desfaz por causa de um pecado.

Nas concepções míticas sobre a criação por um ser supremo não cabe, no entanto, falar de criação a partir "do nada" no sentido filosófico e religioso da expressão. Supõe-se nelas uma matéria - geralmente o oceano ou as águas primeiras, consideradas como o caos - a partir da qual se realiza a criação.

Criação por divisão de uma matéria primordial. O segundo modelo de mito cosmogônico corresponde àqueles que, mesmo apresentando certas similitudes com os anteriores, já que podem confundir-se com um deus ou ser supremo, são resultados de toda a ênfase na própria energia interna da matéria, em manifestações como um caos amorfo, um ovo primevo ou um primeiro casal.

Um mito dos dogôs, povo da África ocidental, narra que o ser divino criou, originalmente, um ovo em que havia dois gêmeos. Um destes, fugindo com parte da substância existente para produzi-lo e criá-lo, resultou imperfeito. Nesse tipo de mito o ovo representa a androginia - macho e fêmea -, a perfeita totalidade, que se desfaz com a separação dos gêmeos. Os maoris das ilhas da Oceania acreditavam que de início o céu e a Terra estavam estreitamente ligados e seus filhos, oprimidos pela escuridão, cortaram os tendões que os uniam, fazendo o céu afastar-se, com o que a luz entrou.

            Uma variação desses mitos seria a criação por desmembramento de um gigante, que simboliza a matéria. A esse modelo deve corresponder o sacrifício de Purusha, narrado no Rig Veda hindu: de sua cabeça saiu o Sol, de seus pés a Terra, de sua consciência a Lua, de sua respiração o vento.

 

Pensamento filosófico e religioso

As doutrinas que, nas religiões, procuram explicar a origem do universo e do homem dividem-se em dois grupos: as que consideram o processo da criação como imanente na natureza e as que o colocam sob a perspectiva da transcendência. As religiões politeístas, comuns na antiguidade, personificavam seus deuses como partes de elementos da natureza. A idéia de uma entidade preexistente à criação, de concepção mais abstrata, prevaleceu no taoísmo chinês. Quanto ao pensamento grego, para ele foi inteiramente estranho o conceito de creatio ex-nihilo (criação a partir do nada); quando os gregos atribuíam a gênese do mundo à obra de Deus, viam-na como elaboração de matéria preexistente.

O confucionismo, pelo menos a partir do século XIII, admite nas origens do universo a existência de dois princípios eternos e inseparáveis, apesar de distintos: o princípio psíquico (Li) e o material (Chi). A ação de ambos manifesta-se mediante agentes como a água, o fogo, o metal e o solo.

 

Para o hinduísmo, a criação do universo decorre da atuação de uma energia que se transforma em maya (ilusão): cada universo criado dura cerca de 4.320 milhões de anos solares; ao final desse período, retorna como maya ao coração de Brahman. Ao criar o universo, Brahman se transforma em Brahma; quando o sustenta, em Vishnu; em Shiva, quando o destrói. Enquanto isso, o budismo clássico não se preocupa com uma doutrina clara sobre a criação: o mundo, para essa crença, reduz-se a suas ilusões.

Duas concepções sobre a origem da alma. O criacionismo e o traducionismo derivam da doutrina da criação. O primeiro afirma que Deus cria uma alma para cada corpo gerado, enquanto que o segundo ensina que as almas são geradas das almas, da mesma forma e ao mesmo tempo em que os corpos o são dos corpos. A partir de Tertuliano, de cuja obra De anima (c. 210; Sobre a alma) surgiu o traducionismo e, por analogia, o criacionismo, muitas foram as polêmicas em torno das duas doutrinas e sua relação com o pecado original.

O essencial é que, nas religiões monoteístas como o judaísmo e o cristianismo, a criação é concebida em termos transcendentais, a partir de uma única divindade. O conceito de uma criação que começa do nada seria estranha ao pensamento semita, e o verbo hebraico empregado no relato, barah, tem sentido às vezes obscuro. A existência de um só Deus, criador de todas as coisas, é o primeiro dos dogmas do islamismo. As relações entre o homem e Alá se explicam como expressão da vontade de Alá por meio do espírito sagrado em cada ser humano. A alma (jawhar ruhani) é substância espiritual criada, não limitada nem moldada.

O judaísmo, que herdou várias idéias sobre a criação de mitologias, filosofias e noções pré-científicas do mundo não-judeu (Oriente Médio, Grécia), enfatiza em seu dogma a afirmação de que Deus criou o mundo, o que constitui um princípio de fé e uma base ética da religião judaica. Fílon defendia a idéia bíblica da criação a partir do nada, enquanto os rabinos do Talmude defendiam idéias gnósticas sobre a criação. Certas concepções sobre a natureza do universo visível (Maaseh bereshit) e do mundo transcendental (Maaseh merkavah) não constituíam matéria de ensino público.

Os filósofos judeus medievais seguiam as idéias de Ptolomeu e admitiam ser a Terra cercada por esferas concêntricas não sujeitas às leis da física e dotadas de "inteligência", tendo Maimônides codificado o sistema ptolomaico em seu Hilkhot yesodei ha-Torah (Diretivas básicas da Torá). A cabala também é rica em especulações de caráter cosmogônico.

Os reformadores protestantes, desde os primórdios da Reforma, procuraram chamar a atenção não para a criação, mas para um Criador, cujo ser não se identifica com nenhuma das coisas criadas e se acha acima do mundo, independente dele. Não se trata, portanto, de saber se Deus criou do nada, mas de afirmar pela fé a existência do Criador.

As concepções tradicionais do cristianismo católico e protestante sobre a criação foram postas de lado pela maior parte dos filósofos a partir de John Locke, que não aceitava a criação como obra ex-nihilo. Passando por Spinoza, Hume, Kant, Fichte, Schelling e outros, chega-se à concepção de Hegel, que não pode imaginar a idéia de Deus sem a existência do mundo. A criação, para Hegel, é concebida em sentido naturalístico, como evolução, ou em sentido idealístico, como atividade universal do espírito.

Sistemas fundamentais. O pensamento racional, ao depurar e sistematizar os conceitos intuídos pelos mitos, propõe três orientações básicas sobre a origem do mundo.

 

Materialismo. De acordo com as concepções materialistas, não se deve buscar um começo nem uma origem ou causa do mundo. Só existe a matéria e esta é eterna, dinâmica, em contínua transformação. Se o universo se encontra em expansão a partir de uma explosão inicial, que os cientistas chamam de big bang, pode tratar-se de uma fase que alternaria com outra de compressão energética, até seu núcleo inicial, e assim aconteceria ciclicamente.

Emanatismo. As doutrinas emanatistas, das quais um exemplo clássico é o neoplatonismo, estabelecem a necessidade de um ser supremo, infinito, como princípio ou causa do mundo. O universo teria se desprendido de Deus, mediante uma emanação deliberada ou acidental de sua própria substância. Para explicá-la, essas doutrinas se socorrem dos símbolos, como a luz que se desprende do Sol, ou recorrem à imagem do feto que se desenvolve no seio materno. O emanatismo com freqüência se converte em panteísmo, identificando tudo com Deus.

Criação. O conceito de criação designa fundamentalmente a produção total do ser por parte do ser supremo. Isso implica uma absoluta dependência do primeiro para com o segundo e uma total distinção entre ambos. Estritamente, a idéia de criação implica produção sem matéria precedente, ex-nihilo.

No que diz respeito à relação de Deus com sua criação, existem duas posições básicas: o teísmo, comum às religiões monoteístas, considera que Deus continua intervindo no curso do mundo; o deísmo, desenvolvido sobretudo pelos pensadores do século XVIII, afirma que, uma vez consumado o ato da criação, Deus se afastou do mundo, que continua a evoluir independentemente da intervenção divina.

Problemas inerentes ao conceito de criação. Ainda que se aceite a idéia da criação, a dificuldade de concebê-la em termos humanos lança sobre ela um mistério que pode ser aceito, embora não se decifre, pela fé religiosa na palavra revelada.

Um dos grandes problemas suscitados pelo conceito de criação é o da existência do mal num mundo criado por Deus. Os mitos já se propunham a questão e, para explicá-la, lançavam mão do dualismo e do antagonismo. O pensamento cristão entende o mal como privação do bem, como limitação do ser finito.

Os filósofos e os teólogos são obrigados a tentar explicar outras questões, tais como a liberdade de Deus no ato da criação, sua contínua ação preservadora, que, entretanto, não invalida a ação humana, e o objetivo de Deus ao criar. Pode-se dizer, portanto, que o conceito de criação, como uma das possíveis explicações da origem do mundo, constitui um ponto central de referência na história do pensamento.

 

“Enciclopédia de Filosofia”

(Internet)

 

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