Consciência

Consciência

 Todo ser humano percebe que existe como um ser singular em relação aos demais objetos e seres do universo. Sob esse aspecto, a consciência constitui a própria essência do ser humano.

O termo consciência designa os processos internos que determinam níveis complexos do comportamento. Sobre sua natureza, distinguem-se duas perspectivas: a animista e a fisiológica ou mecanicista. A primeira insiste no sentido não-físico desses processos, e a segunda identifica-os com atividades cerebrais. Tais processos, presentes nos animais superiores, alcançam seus níveis mais elevados no ser humano. Em função dessa segunda perspectiva, é possível caracterizá-los por três propriedades: pela memória imediata, que permite a coordenação das ações e experiências passadas com as futuras; pela conduta intencional, isto é, organizada em função de metas a serem atingidas; e pela capacidade de resposta.

A teoria animista abrange todas as conceituações de consciência do tipo não-fisiológico ou mecanicista e inclui a posição cartesiana, a de William James, a de Franz Brentano e a conceituação freudiana. Para Descartes, consciência significa conhecimento imediato dos processos que a constituem. Ser consciente é, pois, ser consciente de si mesmo. A perspectiva faz da consciência o seu próprio objeto privilegiado. Ela seria fechada sobre si mesma. Nada mais poderia ser diretamente conhecido. Esse conceito dominou grande parte da história do pensamento psicológico e justificou a consagração da observação direta como o procedimento básico da psicologia.

Segundo Brentano, que retoma a tradição escolástica, não se pode conceituar a consciência como fechada sobre si mesma, pois ela é referência a um objeto e visa sempre a algo diverso de si própria. A intencionalidade é sua propriedade fundamental; mas não a única. O critério da intencionalidade levou Brentano a fundar o sistema de classificação dos fenômenos psíquicos, agrupados em três categorias: a representação, o juízo, o amor e o ódio. Dessa perspectiva derivou todo o movimento fenomenológico.

Para William James o conceito de consciência não se distancia muito do que se fixou com Descartes. Ela é caracterizada em termos de conhecimento reflexivo. No tocante às propriedades nela discerníveis, James classifica-as em quatro: o dinamismo, a seletividade, a continuidade e a pessoalidade. Foi em função da continuidade da corrente da consciência que James estabeleceu a distinção entre processos substantivos e processos transitivos. Estes, por sua própria natureza, escapam a qualquer tentativa de apreensão e descrição introspectivas.

Sigmund Freud rejeita a identificação entre consciência e psiquismo. Na verdade, a consciência teria extensão reduzida e a maior parte do psiquismo seria inconsciente. Para Freud, os conteúdos inconscientes só são acessíveis à consciência por meio do procedimento da análise.

Donald Olding Hebb assinala que, de certo modo, o enfoque objetivo ou comportamentista beneficiou-se da posição freudiana. É possível caracterizá-lo até mesmo como expressão de um processo de radicalização. A idéia consistiu em considerar como inconscientes não alguns conteúdos e processos, mas todos. Se todos são inconscientes e inacessíveis, resta apenas o recurso do estudo indireto, mediante índices externos. Teria sido essa a estratégia fixada pelo behaviorismo. Fechado o acesso aos eventos internos, somente caberia a investigação indireta, pelos sinais comportamentais. Sem dúvida aceita-se que a consciência seja interna, mas o conceito não designa um conjunto de atividades neurocerebrais. Tais atividades podem ser supostas pela edificação de constructos lógicos.

 Derivada da conceituação de Brentano, a perspectiva de Edmund Husserl ganhou dimensão própria e constituiu a base do movimento fenomenológico. A idéia central permanece a da intencionalidade. Surgiram, porém, diversas interpretações, em função do próprio evoluir da doutrina. Maurice Merleau-Ponty conceitua-a como relacional: a consciência não seria subjetiva, mas referência ou relação a um objeto e, mais precisamente, um modo peculiar de visá-lo.

 

“Enciclopédia de Filosofia”

(Internet)

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