PRAGMATISMO

PRAGMATISMO

PRAGMATISMO

Na América, o idealismo teve como principal expoente Josiah Royce (1855-1916), embora em uma forma algo individualista, que os idealistas britânicos julgavam desviacionista. Apesar isso, ele serviu de alvo a ataques de outros filósofos americanos, notadamente de William James (1842-1910), a principal figura do pragmatismo americano. James reconhecia uma grande dívida para com J. S. Mill, mas, por trás dele, havia também C. S. Peirce (1839-1914). Peirce exerceu um cargo universitário, embora por pouco tempo, e foi relativamente desconhecido enquanto viveu. Só quando seus trabalhos foram reunidos e publicados na década de 1930 é que se tornou evidente sua estatura. Sua filosofia constituía uma estranha mistura de diferentes elementos. Deu importantes contribuições à lógica formal, especialmente à lógica das relações. Muitas de suas opiniões nessa área foram semelhantes a outras mais conhecidas, expostas em outros foros. Isto é particularmente verdadeiro no tocante à forma proposicional “se… então”, que ele chamou de “relação ilativa”. Explicou da mesma maneira o que Russell chamou de “implicação material”, isto é, que “se p, então q” significa simplesmente que é o caso de p ser verdadeiro e q, falso. Deu também contribuições à teoria do significado dentro de uma teoria geral de signos. Mas nos seus últimos anos especialmente, ocupou-se de metafísica especulativa, formulando a teoria que chamou de “tiquismo” [Tique: divindade grega do destino e da sorte, que os romanos denominaram Fortuna. (N. do T.)], segundo a qual, no mundo como o conhecemos, devem ocorrer eventos aleatórios, embora o mundo esteja evoluindo para um “sistema perfeito, racional e simétrico”, mesmo que “no futuro infinitamente distante”.

Historicamente, o aspecto mais importante da obra de Peirce é sua versão dos critérios a serem satisfeitos por idéias dotadas de significado. Em um trabalho intitulado “Como Tornar Claras Nossas Idéias”, enfatizou a “importância prática que achamos que têm os objetos de nossa concepção”. O significado de um signo, sugeriu ele mais tarde, deve ser determinado pela conduta racional à qual ele deu origem. Esta opinião, que denominou de “pragmatismo”, tenta determinar o significado de idéias em termos de utilidade racional. William James, no seu Pragmatism (1907) adotou a idéia mas aplicou-a, embora não com muita clareza, à própria verdade, formulando assim a teoria pragmática da verdade: que a verdade de uma proposição é questão dos resultados úteis a que leva. Esta idéia foi levada adiante por John Dewey (1859-1952), que interpretou a verdade em termos de “afirmatividade garantida”, desta maneira assimilando a verdade à verificação. Dewey aproveitou ainda outra idéia de Peirce, a do “falibilismo”, a idéia de que devemos reconhecer que podemos estar sempre errados e que a verdade é um limite ideal para o qual podemos apenas tender. As opiniões de Dewey tiveram uma influência imensa sobre a educação nos Estados Unidos, mas relativamente pouca voga em outros países.

William James foi não só filósofo mas também psicólogo. Em ocasiões diferentes, regeu cátedras em Harvard sobre ambas as disciplinas. Seu Principles of Psychology (1890) é um esforço clássico para mapear a geografia da mente em termos das várias funções mentais executadas pelo ser humano. Nele, James enfatiza a individualidade da consciência, e a idéia de que há algo como uma apresentação, ou Vorstellung, que poderia ser comum a mais de uma mente, é anátema para ele. A consciência, sugere ele, baseia-se em “sensações”. Não obstante, opõe-se à tradição dos sensualistas em pelo menos um aspecto. No capítulo do Principles dedicado ao “fluxo de consciência”, propõe cinco princípios a respeito da consciência, incluindo a afirmação de que ela se interessa por objetos independentes de si mesma. Os mais importantes desses princípios, no entanto, são o segundo e o terceiro, nos quais insiste que em cada consciência pessoal o pensamento está sempre mudando, mas que ainda assim é “sensatamente contínuo”. Nisto ele rejeita a idéia de que a consciência pode “ser picada em pedacinhos”, como supunham os sensualistas. A consciência é como uma corrente, ou rio, embora ocorram pausas no fluxo geral. É, diz ele, mudando a metáfora, como a vida de uma ave, “uma alternação de vôos e pousos”. Para que uma continuidade desse tipo seja possível, sustenta ele, deve haver sensações de relação e sensações de tendência, e cada estado de consciência se situa na “fímbria” de tais relações, que ele chama de “fímbria psíquica”. A fímbria psíquica de qualquer estado pode sobrepor-se à de outro, daí criando a impressão de continuidade. O ser, diz James em outra parte do Principles, deve ser identificado com o fluxo do pensamento.

James enfatizou ainda mais essa teoria no fim da vida, quando concluiu que não fora suficientemente radical em seu empirismo, ao permitir uma distinção entre o pensamento e seus objetos. No seu Essays in Radical Empiricism (publicado em 1912, após sua morte), disse que precisamos postular apenas a experiência pura e que esse conhecimento pode ser explicado em termos da relação de uma parte da experiência pura com outra. Ao formar essa opinião, foi muito influenciado por Bergson, que considerava como insistindo com ele para que “voltasse a mergulhar no fluxo”. Neste contexto, pensava James, o pluralismo era facilmente sustentável. O argumento de Bradley contra as relações, que tornava isso possível, era produto de um falso intelectualismo, que não levava na devida conta a experiência e a vida. O empirismo de James é sensualismo com uma diferença: tenta derivar tudo da experiência, mas recusa-se a aceitar a idéia de que ela nos chega “picada em pedacinhos”.

Há outros aspectos no pensamento de James, incluindo seu antigo ensaio intitulado “The Will to Believe” (A Vontade de Acreditar) que salientam a tendência humana de ir além da evidência, e o The Varieties of Religious Experience (1902), escrito mais ou menos no mesmo espírito. O aspecto mais influente de seu pensamento, no entanto, foi o pragmatismo. À parte Dewey, C. I. Lewis (1883-1964) foi o que demonstrou ter sofrido mais influência dessa tendência de pensamento. Lewis deu grandes contribuições à lógica, mas, filosoficamente, como se verifica no seu trabalho mais importante, Mind and the World Order (1921), ele se preocupou mais em mapear as relações entre os princípios organizadores da mente, ou categorias, e os “dados”, sem supor, no entanto, que os “dados” podem ser determinados independentemente dessas categorias. A aplicabilidade correta da categoria só pode ser decidida por referência ao curso futuro das experiências. Lewis também foi homem de Harvard, e algo do mesmo espírito filosófico, embora com modificações, foi transmitido, conforme veremos adiante, a W. V. Quine (nascido em 1908), também de Harvard.

Uma História da Filosofia Ocidental

De D. W. Hamlyn

Jorge Zahar Editor

Tradução de Ruy Jungmann