Tempo

Tempo

No século V da era cristã, santo Agostinho resumiu a dificuldade para estabelecer a noção de tempo: "O que é, então, o tempo? Enquanto não me perguntam, eu sei; se me perguntam e quero explicar, não sei."

O senso comum tende a considerar o tempo como algo fluido que avança inexoravelmente para o futuro, ou como um ambiente dentro do qual os fatos se sucedem nessa mesma direção. As contradições implícitas em tais concepções, no entanto, levaram filósofos e cientistas a formular teorias que evitassem as armadilhas das noções intuitivas. Duas questões principais surgem para o questionamento filosófico: (1) qual é a relação entre tempo e mundo físico? e (2) qual é a relação entre tempo e consciência?

Interpretação filosófica. Na história do pensamento ocidental, distinguem-se três concepções de tempo, correspondentes respectivamente ao mundo grego, ao cristianismo e à modernidade.

Na Grécia antiga, os pensadores pré-socráticos destacaram a relação entre tempo e movimento. De modo geral, tentaram explicar o tempo dentro da indagação maior sobre o ser da realidade, ou o próprio fundamento do real. No século VI a.C., Parmênides de Eléia entendeu a mudança e o devir como meras ilusões, em contraposição à realidade do ser imutável. Seu contemporâneo Heráclito de Éfeso defendeu o oposto: tudo é movimento, nada permanece e a mudança é o elemento fundamental de tudo o que existe.

Ao compreender a natureza como processo, o movimento e o tempo como base da realidade e o absoluto como vir-a-ser e unificação dos contrários, Heráclito formulou pela primeira vez o pensamento filosófico sob forma especulativa. Demócrito de Abdera, no século VII, procurou conciliar o eleatismo e o heraclitismo mediante a teoria atomista, que admite a plenitude do ser, que denomina "átomo", e a impossibilidade de negar o movimento, mas vê como condição do movimento o espaço vazio. Desse modo, concebe o ser uno e imóvel de Parmênides como dividido num número infinito de átomos, partículas indivisíveis, que se movem no vazio e de cuja união ou separação resultam todas as coisas. Os átomos e o vazio são eternos, assim como o movimento.

Platão inaugurou a noção de tempo como aspecto do mundo sensível que mantém com o mundo transcendental a mesma relação que os objetos sensíveis têm com suas idéias ou formas essenciais: o tempo não seria senão a cópia ou imagem mutável e fenomênica da eternidade, imutável e simultânea, que acolhe e transcende a própria dimensão temporal.

O precedente grego das controvérsias modernas sobre o tempo deve ser buscado, no entanto, em Aristóteles. Embora tenha preservado a distinção platônica entre "eternidade" e "temporalidade", ele dedicou especial interesse à definição de tempo, a partir da perspectiva da teoria do conhecimento, e o concebeu como "a medida do movimento". Aristóteles observa que tempo e movimento são percebidos concomitantemente. Como exemplo, situa uma pessoa no escuro e observa que ela só perceberá que o tempo passa na medida em que houver um movimento em sua mente. Decorre disso que o tempo deve estar necessariamente relacionado ao movimento. Mas no conceito de sucessão temporal encontram-se incluídos conceitos como os de agora, antes e depois. O tempo, então, é a medida do movimento conforme o antes e o depois. A origem dessa medida do tempo, argumentou Aristóteles, provém da alma ou consciência interna do tempo, já que as noções de passado, presente e futuro são compreensíveis apenas do ponto de vista da subjetividade humana, o que põe em questão a própria condição de entidade real e autônoma do tempo.

Para os pensadores gregos, o tempo era cíclico, à imagem da sucessão do dia pela noite. O advento do cristianismo, porém, inaugurou uma concepção linear do tempo ao anunciar o juízo final: havia início, no Gênesis, e fim dos tempos, no Apocalipse, em contraste com a eternidade do reino de Deus. O homem deveria, então, fazer da vida no tempo a preparação para a vida eterna.

A teoria aristotélica foi retomada no século XVII, em meio à polêmica entre os partidários de uma concepção absoluta do tempo e os que postulavam seu caráter relativo. Para o físico britânico Isaac Newton, "o tempo absoluto, verdadeiro e matemático, por si mesmo e por sua própria natureza, flui uniformemente sem relação alguma com o exterior". Assim, as transformações do mundo sensível ocorrem no tempo, mas não o constituem. A existência do tempo é necessariamente sem começo, sem fim, linear e contínua. Suas propriedades são independentes do universo físico, estabelecidas filosoficamente, sem referência à pesquisa científica. Para a teoria relativista, porém, o tempo pode ser reduzido à mudança. O filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz adotou o ponto de vista segundo o qual o tempo não pode ser considerado independente dos fenômenos, porque ele se constitui precisamente da relação entre os fenômenos.

Embora a teoria newtoniana tenha se tornado o principal instrumento da mecânica clássica, a maior parte dos filósofos posteriores tendeu a destacar o tempo como representação intelectual em vez de realidade empírica. Immanuel Kant definiu-o como uma das intuições a priori dos sentidos. Hegel entendeu-o como manifestação do espírito absoluto intemporal.

A idéia de tempo depois de Einstein. No século XX, o físico Albert Einstein contribuiu para afastar a idéia de um tempo absoluto ao formular a teoria da relatividade. No lugar do fluxo contínuo e imutável, Einstein introduziu o conceito de espaço-tempo, segundo o qual o espaço e o tempo são dois sistemas de relações inseparáveis, embora à percepção humana se apresentem de forma independente. Não há no universo um tempo absoluto, independente do que acontece com a consciência que o observa, assim como não há um ponto de referência que permita comparações absolutas. O que se chama de tempo é apenas a ordem de sucessão das coisas, umas depois das outras. Assim relacionado ao espaço, o tempo passa a constituir mais uma dimensão deste, ao lado das três dimensões tradicionalmente aceitas, numa concepção tetradimensional do universo.

Tema essencial do pensamento contemporâneo, a noção de tempo liga-se à valorização da subjetividade assim como do concreto, com Bergson, Husserl e Heidegger. Numa abordagem vitalista e psicológica, Henri Bergson critica a concepção einsteiniana. Distingue o tempo como conceito da ciência -- objeto de análise e suscetível de medida, por ser tempo espacializado --, da duração pura, vivida pela consciência individual. O tempo "abstrato", homogêneo, da vida social e do pensamento científico, não corresponde a nenhuma realidade. O que se mede, por meio do movimento, não é o tempo, mas a extensão percorrida pelo móvel no espaço. Somente é real e apresenta valor ontológico a "duração", dado imediato da consciência, quer dizer, apreendido diretamente por ela. A fluidez da vida interior é memória ou consciência da duração, que se caracteriza pela consciência da sucessão do antes e do depois.

Para Edmund Husserl, na concepção fenomenológica e idealista, o tempo coincide com o curso da consciência: é uma noção construída pela inteligência a partir da "temporalidade", fundamento que é propriedade do eu subjetivo. O sujeito apenas chega a si mesmo no tempo. Desse modo, a experiência interior que o homem tem de si mesmo é simultânea e coincide com sua experiência interna do tempo.

A temporalidade, para o pensamento contemporâneo, é a essência do ser que o homem tem consciência de ser. Dessa noção decorre a antinomia: a temporalidade é a essência mesma do ser, em conseqüência, o ser está votado à finitude e à morte. Por outro lado, o sujeito está fora do tempo, visto que o pensamento pode dominar o instante que passa pela retenção do passado e pode também se estabelecer, numa espécie de intemporalidade, pelo projeto voltado para o futuro. Mas esse "eterno presente" não é senão o instante da passagem, o agora através do qual o futuro se nega e se torna no seu negativo, o passado. Assim aparece o caráter paradoxal do tempo, realidade fugidia que se desvanece ao mesmo tempo em que é: o passado não é mais, o futuro não é ainda, o presente não é senão o instante efêmero. Tomar consciência do tempo é apreender o não-ser que corrói o seu ser. O tempo, além do seu vir-a-ser inapreensível, é a marcha inelutável para a morte. Daí surge o tema da angústia, que nutre a reflexão contemporânea, de Schopenhauer a Sartre.

Martin Heidegger sustenta uma concepção existencial do tempo e da historicidade do homem. A partir da análise existencial do Dasein, existência humana, procura revelar seus elementos estruturais. Posto no mundo, o Dasein apresenta uma estrutura projetiva, ou antecipadora, que lhe permite realizar seu ser sem antecipar seu poder ser. Existindo em função do projeto, cuja realização depende de sua liberdade, será essencialmente pré-ocupação, cujo sentido ontológico é a temporalidade. A possibilidade de superação da angústia do tempo consiste em assumir, ao mesmo tempo, passado e projeto de ser, afirmando a presença do ser no mundo e dirigindo o destino.

 

“Enciclopédia de Filosofia”

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